Camarilha dos Quatro

Revista de crítica musical.

Killer Mike – R.A.P. Music (2012; Williams Street, EUA)

Killer Mike, também conhecido como Mike Bigga, é o pseudônimo de Michael Santiago Render, rapper nascido em Atlanta, EUA. Render fez sua estreia no mundo da música em uma participação na faixa “Snappin’ & Trappin'”, do OutKast, parte do disco Stankonia (2000). Em 2001, em outra parceria com o OutKast, contribuiu para a faixa “The Whole World”, da coletânea Big Boi and Dre Present… OutKast (2001). Seu primeiro álbum, Monster (2003), foi o responsável pelo single “A.D.I.D.A.S.”, parceria entre Render, Sleepy Brown e Big Boi, sendo até hoje a faixa de maior sucesso comercial do rapper. Depois vieram I Pledge Allegiance to the Grind I (2006), I Pledge Allegiance to the Grind II (2008), Underground Atlanta (2009) e PL3DGE (2011). Com uma forte temática política, comum à sua discografia, e produzido pelo conceituado El-P, R.A.P. Music (2012) é o mais recente lançamento de Killer Mike. (AT)

* # *

O acrônimo R.A.P. de R.A.P. Music (2012) não diz respeito ao discurso rítmico utilizado pelo hip-hop, mas significa Rebellious African People. Se desde seus primeiros trabalhos, o que ficou sempre claro na obra de Killer Mike é uma música política, com um jogo de ironia sempre ácido e certeiro, esse título parece mais do que apropriado. Provocador e inconsequente em suas letras, Michael Render é um tipo raro, pois ao mesmo tempo em que consegue manter uma dinâmica sonora muito forte em seu trabalho, ainda que pouquíssimo explorada comercialmente, o rapper toca em questões delicadas, construindo uma temática política inteligente, sempre atual, e que, principalmente, não poupa nada e nem ninguém. O homem que, em apenas uma música, já aloprou gente como Oprah Winfrey, Bill Clinton, George Bush, Bill Cosby, e cinco anos depois, literalmente na parte dois, foi atrás de Obama, Puff Daddy, Jay-Z, padres pedófilos, além de toda uma legião de políticos brancos e conservadores (tudo isso sampleando ironicamente Frank Sintra); por incrível que pareça, mantém uma saudável distância de um hate rap gratuito. Pelo contrário, Render, em alguns momentos, se compara a Martin Luther King, Malcom X , Che Guevara, e até Jesus Cristo (como no final da letra de “That’s Life 2”: But he did have love for the poor and the theives / And he was in the street, kind of similar to me, nigga) Tudo isso devido a sua extrema dedicação aos mais pobres e aos injustiçados, e que ele sempre faz questão de deixar claro, uma espécie de líder revolucionário anti-burguês que tem em uma certa qualidade old-school do rap, aliada a um quê soul nos hooks (muito culpa do próprio imaginário do southern Hip Hop), sua grande arma. E de fato, em quase todas as composições existe um caráter contestador sempre acima da simples zoação, o sarcasmo aqui não existe exatamente como um objeto de entretenimento (ainda que ele também funcione muito bem nesse sentido), mas sim como catalisador de um discurso social contundente. O que faz de Killer Mike uma espécie de extremista, “I’m a book reader, I’m a gang leader”, é o que ele diz em “So Glorious”, primeira faixa de Pl3DGE (2011), enquanto que em “Big Beast”, primeira faixa deste R.A.P. Music (2012), ele solta: “We the readers of the books and the leaders of the crooks“, reiterando essa espécie de mito entre o homem político, sempre consciente de sua causa, e ao mesmo tempo o contestador, o revolucionário, no sentido quase marginal da palavra. Não seria esse o pior pesadelo de qualquer sistema autoritário de classes, em que a ordem sempre deve prevalecer? Essa figura do marginal intelectual, aquele que é vítima mas sabe muito bem de quem ir atrás, conhece as entranhas do sistema. Pois Render, do início de sua carreira até hoje, conduz esse papel com maestria.

Ainda assim, Michael Render não se define como um rapper político, declarando-se apenas um “social commentator“. Muito mais do que um simples debatedor social, Render é um poeta, que mescla um oceano infinito de referências culturais com a situação política de seu país. “This is not a fiction that is sold by conglomerates / This is Soul of Black Folks mixed with Donald Goines shit“, ou seja, o tratado sociológico afro-americano incorporado à realidade urbana, como define um dos versos de “Untitled”. O lirismo e a agressividade trabalhando em prol de um letra sempre reveladora, não uma construção fútil que tem na ostentação seu objeto supostamente poético, como tendem a fazer alguns rappers mais festivos que Render combate. Aliás, para Render, o hip-hop meramente comercial de incitação supérflua deveria ser crime: “Cos all we seem to give them is some balling and some dancing / And some talking about our car and imaginary mansions / We should be indicted for bullshit we inciting“, como ele diz em um trecho de “Reagan”. Faixa esta, aliás, que traz um dos grandes momentos do disco; costurada pelo discurso contraditório de Ronald Reagan sobre o escândalo de Irã-Contras (em que a CIA foi acusada de facilitar o tráfico de armas para o Irã em troca da liberação de reféns), a temática anti-reagan tão comum ao hip-hop ganha ares ainda mais míticos, traçando todo um imaginário macabro que ainda hoje assombra a política norte-americana, deixando uma herança triste e problemática, em que invadir um país do oriente médio por petróleo se tornou um simples hobby: “Why did Reagan and Obama both go after Qaddafi / We invaded sovereign soil, going after oil /Taking countries is a hobby paid for by the oil lobby“.

Mas o que fecha o círculo discursivo do disco, e que só traz mais força para sua simetria perfeita, é a faixa título da obra, “R.A.P. Music”. “I’ve never really had a religious experience, in a religious place. Closest I’ve ever come to seeing or feeling God is listening to rap music. Rap music is my religion. Amen“. Render não acredita em nenhuma religião, em nenhum governo, em nenhuma forma de controle, enfim. A única devoção aqui é o R.A.P. Music: a ambiguidade de seu acrônimo, o rap em si, o puro discurso rítmico do hip-hop, e o Rebellious African People, do qual o disco mais diretamente se refere. O hook da faixa, “This is jazz, this is funk, this is soul, this is gospel / This is sanctified sex“, descreve os gêneros difundidos pelos negros, para no segundo verso, em uma profusão de referências afro-americanos, Render destilar o nome de Ray Charles, Stevie Wonder, OutKast, Nina Simone, e muitos outros, em uma cronologia histórica do passado e do presente, daquilo que ele entende como o mais sagrado: Rebellious African People, a rebeldia sempre necessária e inspiradora, a contestação cultural afro-americana como resistência política.

O disco goza de um equilíbrio ímpar não só por toda essa temática intelectual e social muito bem arquitetada por Render, mas a escolha de seu produtor, El-P, foi um golpe vital. Quem melhor para produzir este, que talvez seja o disco mais completo de Killer Mike, aquele que vai colocá-lo finalmente na história do gênero, do que este mito do hip-hop independente? Se Render sempre foi avesso ao mundo das grandes gravadoras, o homem famoso por criar um selo que, de alguma forma, redefiniu a história do hip-hop como um todo (o Def Jux) e que transita tranquilamente entre as várias esferas do gênero, parece nada mais do que perfeito para o trabalho. “Jojo’s Chillin”, a pequena fábula do disco que narra uma jornada simbólica cheia de peripécias de um jovem que viaja até Nova York, é entrecortada por synths caricatos e uma percussão seca que dá o tom da rima. Uma manipulação certeira na distorção de graves é um dos grandes responsáveis pela força rítmica do disco como um todo, particularmente em faixas como “Anywhere But Here” e “R.A.P. Music”, nesta última, a bassline picotada com maestria mantém a devida proporção entre o caráter monumental das letras e um alcance melódico sedutor de sua sonoridade, El-P em sua melhor forma.

Tudo é um indicativo: a produção de El-P, a bagagem de Render que vem de uma discografia rica, complexa e infelizmente pouco conhecida para muitos, a fenomenal combinação entre o homem culto e político, o marginal erudito, com a dinâmica de uma sonoridade muito bem dosada e de alcance universal. Tudo já conspirava para isso: uma obra-prima do hip-hop contemporâneo. Um disco que sabe dosar sua qualidade old-school, remetendo, em sua musicalidade e temática, à nomes que vão de Notorious Big à Tupac, Cannibal Ox à Big Boi, e por aí vai, com uma sonoridade que, se de alguma forma é própria de Atlanta (e que pode até se valer de uma certa redescoberta do southern Hip Hop), tem em Killer Mike um de seus representantes mais peculiares. Se o R.A.P. em seu acrônimo particular é a religião de Michael Render, ele próprio, nos dias de hoje, é de fato um de seus grandes sacerdotes; e a nós, resta apenas uma coisa: venerá-lo. (Arthur Tuoto)

Ouça a faixa “R.A.P. Music
“Reagan” fez parte do Camarilha Podcast #79

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Um comentário em “Killer Mike – R.A.P. Music (2012; Williams Street, EUA)

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Publicado às 21 de junho de 2012 por em álbum da semana e marcado , , , .
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