Camarilha dos Quatro

Revista de crítica musical.

Captain Beefheart – Bat Chain Puller (2012 [1976]; Zappa, EUA)

Captain Beefheart é o pseudônimo do cantor e compositor norteamericano Don Van Vliet (Califórnia, 1941-2010). Ele começou sua carreira em 1965, sempre acompanhado da Magic Band, um grupo que ao longo de sua existência passou por inúmeras formações diferentes. Depois de dois singles em 1966, o primeiro disco, Safe as Milk, veio no ano seguinte. Sua mistura de blues, rock e música experimental chamou a atenção de artistas como os Beatles e Frank Zappa, esse último colega de adolescência de Van Vliet. Foi com Zappa como produtor que Captain Beefheart fez seu trabalho mais celebrado, o álbum duplo Trout Mask Replica, de 1969. Seguiram-se Lick My Decals Off, Baby (1970), The Spotlight Kid  (1972) e Clear Spot  (1972). Frustrado com o pouco sucesso, Beefheart fez dois discos em 1974 com material mais acessível, que o fizeram perder parte de sua reputação. Zappa novamente apareceu para produzir Bat Chain Puller em 1976, mas uma briga entre Zappa e seu parceiro de negócios postergou indefinidamente o lançamento do álbum. Seguiram-se Shiny Beast (Bat Chain Puller)  (1978), Doc at the Radar Station  (1980) e Ice Cream For Crow  (1982), que recuperaram o estilo mais pessoal e excêntrico de Van Vliet. A maioria das faixas de Bat Chain Puller aparece nos discos subsequentes, mas em outras versões, com músicos e produção diferentes. No começo de 2012 o álbum finalmente foi lançado pelo selo Zappa, gerido pelos herdeiros do músico, contendo a íntegra do disco mais quatro faixas bônus. (RG)

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Bat Chain Puller é um disco-evento crucial na carreira de Captain Beefheart. É uma espécie de renascimento após quatro anos de frustrações e direcionamentos equivocados de carreira, que em 1974 renderam dois discos que o próprio autor renegaria posteriormente, Unconditionally Guaranteed e Bluejeans & Moonbeams. Tragicamente, o álbum de recomeço para o projeto de Don Van Vliet foi um dos bens congelados com o litígio judicial entre Frank Zappa e seu empresário/parceiro Herb Cohen, e consequentemente não viu a luz do dia. Muito estranho, portanto, que um projeto desse porte, com toda carga emocional e mítica dos projetos abortados/incompletos/embargados (Smile, Cocksucker Blues etc.), tenha tido tão pouca atenção da mídia especializada. O fato de várias das canções presentes em Bat Chain Puller já terem aparecido em outros discos, em versões diferentes, é pouca água no chope para diluir a importância do lançamento. Apenas o fato do material já ter sido lançado anteriormente – ainda assim como bootleg e com circulação restrita, mas com a integridade das faixas e a ordem correta – através do nome Dust Sucker, em 2002, poderia reduzir o interesse do lançamento. Mas quem ouviu isso na época? E, em todo caso, resta ao menos o marco oficial de lançamento, que vem mitigar uma lacuna imprescindível na obra de um dos artistas mais genuínos e extravagantes da música pop no século XX. E, claro, a formidável desculpa para renovar o contato com a obra desse músico inspirador e brilhante.

Bastariam alguns segundos de “Bat Chain Puller”, a canção que abre o disco, para convencer um antigo fã de que ter ouvido suficientemente as mesmas faixas em Shiny Beast, Doc at the Radar Station e Ice Cream For Crow não é motivo para esnobar essas versões originais. Não só porque são as originais, mas porque são versões muito superiores àquelas dos discos subsequentes, seja pelo quilate dos músicos, seja pela qualidade de produção ou pela mixagem. Nos primeiros segundos da faixa que dá nome ao discos já é patentemente superior o diálogo de guitarras, mais efetivas ritmicamente, mais próximas entre si e mais coesas, autocomunicantes. Novos fãs também podem encarar a faixa como uma excelente porta de acesso à obra de Beefheart: a angularidade, a pegada blues, a fissura entre contador maluco de histórias e croonerclown, além do claro aspecto alienígena da canção, são um bom exemplo do que é Van Vliet em seu melhor (mas o melhor melhor, efetivamente, é Trout Mask Replica que fornece e quanto a isso não se pode fazer muito). Com a inédita “Seam Crooked Sam”, um delicado diálogo entre voz, teclado e guitarra, do número de music-hall esquizo-açucarado “Harry Irene”, da narração de prosa poetica sem acompanhamento em “81 Poop Hatch” e dos doces dedilhados de guitarra de “Flavor Bud Living”, temos uma boa ideia de que a imaginação de Van Vliet passeia por muitos lugares diferentes. Mas é com”Brickbats” que vem o grande momento do disco, com um saxofone bêbado em paralelismo com a cantoria/declamação não menos ébria de Van Vliet, enquanto guitarra e bateria recortam ainda mais a coesão da faixa com padrões definidos mas sem rima interna com nada do que acontece alhures. É Beefheart em modo Sun Ra. A superioridade dessa versão em relação à de Doc at the Radar Station é evidente, mais dissonante e ao mesmo tempo mais espontânea, e a melhor qualidade de som dá incrível relevo às incongruências e às congruências que fazem a força do estilo de Beefheart.

Mas o “modo Sun Ra” não era seu único modo, e “Floppy Boot Stomp” deixa isso claro, com um avant-blues-rock com grandes momentos de vocalizações roucas-loucas bluesy e guitarra slide. “Ah Carrot Is As Close…” é outro momento instrumental melódico, dessa vez levado pelo piano. “Owed T’Alex” é um poema de Herb Bermann musicado e declamado com uma espécie de energia concentrada. Energia oposta é a de “Odd Jobs”, a outra inédita, que parece mais serena, lembrando por vezes até o estilo desafetado com que Lee Ranaldo canta seus poemas no Sonic Youth. Outra faixa narrada em modo de conto, “Human Totem Pole” mostra guitarra e bateria novamente desenhando ritmicamente em torno de uma estrutura seca, mínima, nos lembrando como Beefheart – um artista sem qualquer formação musical que explicava suas ideias a seus músicos através de dicas não convencionais como pantomima ou assovios – encontra um soberbo equilíbrio entre fragmentação e coesão, jamais soando como desarticulação mas também longe da organicidade equilibrada da qual ele sempre fugiu. “Apes-Ma” fecha o disco com 40 segundos de conversa com um macaco ficando velho, talvez seu próprio alter ego. Das faixas bônus, além de uma versão alternativa para “Bat Chain Puller” e do outtake “Candle Mambo” (única versão que não é melhor do que a posterior, presente em Shiny Beast), há a inédita “Hobo-ism”, uma bela e descompromissada canção de violão, gaita e voz fazendo uma ode aos vagabundos itinerantes,também anteriormente presente apenas em registros não-oficiais.

Bat Chain Puller é um discaço não porque tudo nele é primoroso, mas porque o conjunto do material primoroso com o material apenas-bom produz uma cara, um espaço, a tal da desorganicidade articulada que não encontramos, assim exposta, em nenhum outro artista. Esse lançamento tardio pode não reconstruir as principais linhas de força e cronologia da carreira de Captain Beefheart, tampouco apresentar novas facetas, mas deixando nosso apego de lado, é mister concluir que se trata do melhor disco da segunda fase de Beefheart, ou seja, pós-Clear Spot, e um álbum que discutivelmente pode ser comparado aos outros que não são Trout Mask Replica. O frenético, musicalmente irrequieto capitão pode finalmente descansar – nossos ouvidos é que alegremente não descansarão com a quebradeira. (Ruy Gardnier)

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