Camarilha dos Quatro

Revista de crítica musical.

Jam City – Classical Curves (2012; Night Slugs, Reino Unido)

Jam City é o pseudônimo do produtor londrino Jack Latham (n. 1990). Seu primeiro lançamento é um EP de remixes intitulado Ecstacy Refix, surgido em meados de 2010. O primeiro EP de composições próprias, Magic Drops,  veio no mesmo ano. Em 2011 veio o Waterworx EP. Classical Curves é o primeiro álbum do Jam City, e, como todos seus outros trabalhos, foi lançado pelo selo Night Slugs, capitaneado pelos produtores Bok Bok e L-Vis 1990. (RG)

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Os arpejos e o vaporoso acorde de sintetizador mantido de “Backseat Becomes a Zone While We Glide”, faixa que abre Classical Curves, são pistas enganadoras deixadas no caminho. O coração dessa pequena composição reside nos outros sons, quase incidentais, que aparecem nela: barulhos de vidro quebrando, portas se fechando, convertidos pela lógica rítmica em prato e bumbo, mas ainda assim suficientemente abruptos para cativar nossa atenção. O intenso mistério e boa parte da fascinação desse primeiro álbum do Jam City vêm exatamente dessas incursões abruptas, violentas, de elementos percussivos insistentes sobre fragmentos melódicos tênues ou esqueléticos, conferindo à percepção sonora sensações de abstração e incompletude. “Her” não poderia deixar isso mais claro: loops de voz, barulhinhos de flash de câmera e um massivo bumbo de bateria atacando freneticamente, sem auxílio de qualquer outra peça da bateria para dar relevo – ao contrário, a faixa parece sugerir que justamente o que ela quer é a superfície, trabalhada via brutalismo.

Existe efetivamente uma forma de violência em jogo nas batidas do Jam City, mas, vitória suprema, ela é trabalhada com elegância e uma enorme sabedoria do espaço sonoro. Redução é uma das palavras importantes na composição de Classical Curves: o som nunca é cheio, a entrada das melodias é sempre discreta ou fragmentária, e as faixas jamais evoluem para um estado de resolução das tensões (ou seja, o oposto da colossal “Wut”, do Girl Unit, lançada pela mesma casa). Bumbos, palmas, caixa, pratos atacam em “The Courts”, tendo como única contrapartida melódica um groove de baixo sintetizado que nos lembra remotamente do funk eletrônico de um Prince ou do Herbie Hancock robótico; esse groove, em todo caso, não povoa a composição, servindo se tanto como alívio de tensão enquanto os elementos percussivos não atacam novamente. Em “How We Relate To the Body” a redução é ainda mais sentida, à medida que nossa própria percepção tende a preencher mentalmente os espaços vazios que convencionalmente são preenchidos em música de pista e nem-tão-de-pista assim. Na faixa o elemento insistente é um riff de teclado, com padrões percussivos se substituindo ao passar dos compassos, praticamente sem se comunicar, até que por volta dos 20% finais eles começam a aparecer juntos, mas sem nenhum climax épico de resolução.

Há algo de maníaco, tecnóide, robótico no som de Classical Curves, mas nem os baixos sintetizados, nem o vocoder e tampouco timbres sintetizados dos anos 80 conseguem imprimir no som uma sensação de submissão do imaginário a qualquer passadismo. Até quando Classical Curves é menos original, como em “Hyatt Park Nights Pt. 1” – não acidentalmente a faixa mais “cheia” do disco –, a excentricidade do som remete unicamente ao estilo de seu compositor, que dialoga com UK garage, música industrial, techno de Detroit e eletrofunk, mas configura seu som com uma feição toda particular. As faixas que não são guiadas por batida, como “B.A.D.” e “Love Is Real”, permitem compreender como as composições do Jam City, desde “Ecstacy Refix” mas agora com mais clareza, se estruturam entre deixas melódicas, padronagem rítmicas e, talvez principalmente, o espaço vazio que se produz entre elas – é flagrante no disco a ausência do baixo, ou aliás qualquer instrumento com função de preenchimento entre as camadas. Dessa tensão direta entre apego emocional e ataque rítmico, quase um embate dialético, surge a força e o estilo particular do Jam City e desse poderoso Classical Curves, um disco que nem sempre funciona em altíssimo nível, mas que é forte suficiente para redefinir a cara de seu selo (considerando tratar-se de um dos melhores selos de eletrônica britânica, não é pouca coisa) e para servir como um dos grandes desbravadores de caminhos para os impasses do “hardcore continuum” em 2012. “Barely a Trak”, o nome de uma das faixas do EP Waterworx, dá a deixa: é nesse “barely” que reside toda a grandeza de Classical Curves. (Ruy Gardnier)

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3 comentários em “Jam City – Classical Curves (2012; Night Slugs, Reino Unido)

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Publicado às 26 de junho de 2012 por em álbum da semana e marcado , , .
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