Camarilha dos Quatro

Revista de crítica musical.

Liars – WIXIW (2012; Mute, EUA)

Liars é um grupo norte-americano de rock (Nova York, com origens em Los Angeles), capitaneado pelo cantor e guitarrista Angus Andrew, australiano de origem. Originalmente a banda se completava com Aaron Hemphill (guitarra, percussão e sintetizador), Pat Noecker (baixo) e Ron Albertson (bateria), formação que gravou o primeiro álbum do Liars, They Threw Us All in a Trench and Stuck a Monument on Top, em 2001. Logo em seguida Noecker e Albertson saíram do grupo e Julian Gross assumiu a bateria. Com essa formação gravaram todos os discos seguintes: They Were Wrong, So We Drowned (2004), Drum’s Not Dead (2005), Liars (2007), Sisterworld (2010), e este WIXIW (2012). Produzido por Daniel Miller, dono e fundador da Mute Records, WIXIW (pronuncia-se wish you) agrega elementos eletrônicos um tanto quanto sombrios a uma discografia já caracterizada por uma rica e variada gama de referências. (RG, AT)

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O que mais fascina na discografia do Liars é a maneira com que o grupo incorpora uma estética musical até certo ponto reconhecível – falsetes etéreos, arranjos relativamente simples e sempre repetitivos, progressões atmosféricas mas nunca previsíveis, toda uma qualidade instrumental mais artesanal, enfim – com uma prática que, indiscutivelmente, consegue estabelecer uma identidade própria em cada álbum. O discopunk cru de They Threw Us All In A Trench And Stuck A Monument On Top (2001), as texturas soturnas de They Were Wrong, So We Drowned (2004), a acústica quase celestial de Drum’s Not Dead (2006), o rock classudo e excêntrico de Liars (2007), e as melodias doces e sempre à deriva de Sisterworld (2010). Ou seja, uma cronologia musical de respeito, que consegue fazer muito com muito pouco, sempre muito bem. Para o Liars, apenas uma máxima é de fato constante: é preciso mudar para se continuar o mesmo.

E qual foi a guinada da vez? Talvez a mais óbvia: a música eletrônica. Não que o disco faça uma alusão óbvia ao gênero, isso nem seria comum ao histórico da banda, mas não deixa de ser curioso que o Liars tenha escolhido justamente o eletrônico, justamente agora. Uma escolha paradoxal e ao mesmo tempo provocadora: se muitas bandas indies, nos dias de hoje, tem no eletrônico (e principalmente em seus subgêneros mais inofensivos) uma alternativa para deixar seu som mais “moderno” e “digerível”, o Liars faz o movimento contrário. Pois as texturas aqui não deixam de ter um ar retrô, às vezes até new age, o que de fato, se por um lado deixa o som da banda mais destilado, até mesmo acessível, por outro invoca uma poética que nunca é exatamente saudosista, mas encontra força em uma espécie de romantismo excêntrico. Samples soturnos, synths sombrios, um vocal meio à Thom Yorke, enfim, uma espécie de post-punk futurista perdido no tempo. Provavelmente um disco que não entrará no panteão da banda, mas que não nos deixa de surpreender em vários sentidos.

“The Exact Colour Of Doubt” abre o disco com um synth sideral e uma percussão tímida, um vocal arrastado de Angus e algumas palminhas dando o tom, uma baladinha gostosa e de teor introdutório funcional. Ninguém mais aguenta as comparações com o Radiohead, mas ao ouvir “Octagon” e “His and Mine Sensations” fica inevitável uma confrontação: o vocal, a marcação das baterias programadas, os synths mais modulares. Não que a coisa se limite a isso, “III Valley Prodigies” utiliza-se desse mesmo vocal thomyorkeano mas tem lá suas excentricidades peculiares, uma textura caseira ao fundo de difícil identificação e outros enigmas sedutores. “No. 1 Against The Rush” define bem essa tendência do álbum em ficar entre uma aura sombria retrô e o eletrônico mais primitivo, com seus synths soturnos e progressivos à Kraftwerk. Indo para um caminho mais claro do eletrônico de pista, “Brats” é uma espécie de techno com vocal estilizado e uma profusão de synths distorcidos que encontra muito bem seu caminho mais grandioso, por assim dizer. Sem falar em “Who is The Hunter”, o dance sentimental do álbum, com os lamentos de Angus em paralelo ao batidão mais luminoso.

Claro que não deixa de ser um pouco decepcionante para alguns ver o Liars fazer um disco de música eletrônica que, em um primeiro momento, soa um pouco frouxo, suave, fácil até, pelo menos visto as mil possibilidades que o trio poderia seguir. Mas se o trabalho do grupo é justamente trair seus fãs, temos aqui toda aquela possível potência ritualística vista em outros trabalhos, reconfigurada em uma forma eletrônica mais emocional, romântica, branda, quase caseira; um artesanato ainda certeiro. Cada novo disco do Liars ainda soa como uma viagem em particular: independente, nova, com uma paisagem que se por um lado flerta com objetos já antes contemplados, ganha outras forças em uma nova temática. Um grupo que, por si só, embarca toda uma historicidade musical em suas mil referências e brincadeiras, sempre jogando (e ironizando) com o nosso senso de gênero. O Liars é ainda o transexual do rock experimental, aquele que engloba em si possibilidades complexas e sempre foge de uma definição limitadora; ele é um – e único – só quando é muitos. (Arthur Tuoto)

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2 comentários em “Liars – WIXIW (2012; Mute, EUA)

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Publicado às 27 de junho de 2012 por em álbum da semana e marcado , , .
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