Camarilha dos Quatro

Revista de crítica musical.

THEESatisfaction – awE naturalE (2012; Sub Pop, EUA)

THEESatisfaction é uma dupla de Hip Hop formada em Seattle por Stasia Irons e Catherine Harris-White. Começaram as atividades em 2008, com o álbum independente That’s Weird. Desde então, já lançaram no mesmo formato (CD-Rs feitos à mão e desligados de qualquer selo) uma série de mixtapes, EPs e singles. Em 2011, participaram de Black Up, álbum da dupla Shabazz Palaces, também de Seattle, lançado pelo Sub Pop. A colaboração lhes rendeu uma assinatura com o catálogo, através do qual elas lançaram o álbum awE naturalE. (IC)

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“Turn off your swag”, é o que exigem Stasia Irons e Catherine Harris-White para que entremos na festa de awE naturalE. Ainda que “QueenS” não seja a primeira faixa do disco, sem dúvidas trata-se da mais imediata, concentrando também algumas das frases mais marcantes de toda a audição. Perca a compostura, deixe o carão na porta, e o mais importante: o que quer que você faça, “don’t funk with my groove”. Prova que, caso houvesse interesse, Stas e Cat seriam capazes de construir um disco Pop/Neo-Soul que faria alguns artistas contemporâneos bem-sucedidos se envergonharem de suas carreiras tediosamente previsíveis. No entanto, definitivamente não é essa a intenção aqui.

A frequente relação que se faz do THEESatisfaction com o Shabazz Palaces, além do fato de ambos terem colaborado nos álbuns recentes um do outro, diz mais respeito a um ponto de partida conceitual em comum do que à música propriamente dita. Enquanto as garotas trabalham num território relativamente mais seguro, no qual a maciez do Soul e do R&B anda de mãos dadas com os padrões de produção do Hip Hop, o outro duo prefere uma sonoridade mais difícil de mapear em relação às referências, parte do que os torna tão interessantes. Por outro lado, os dois projetos partem da mesma proposta de um Hip Hop mais livre e híbrido – daí vem a atualidade e o frescor desses quatro –, mas elas se jogam em direção ao desafio com muito mais diversão e desprendimento.

Ostentando sua linhagem primordialmente negra (“my melanin is relevant”, fala de Stas em “Deeper”, é outra frase que ecoa em todas as outras faixas), “awE naturalE”  mistura o groove consciente de Erykah Badu, a experiência com loops e texturas Soul de Vanese Smith no Pursuit Grooves, e a organicidade do Shabazz Palaces. A introdução (“awE”) retorna 20 anos na história do Hip Hop, ignorando a tendência de copiar Flying Lotus e companhia que assola boa parte dos produtores de hoje. A adorável “Bitch” traz um rap notavelmente preocupado com a musicalidade, que flutua sobre o conjunto de baixo, percussão e palmas, para desaguar numa parte mais claramente cantada. “Earthseed” faz o contrário, desenvolvendo uma levada melódica deliciosa marcada por um piano limpo e letra motivacional, até quase o final, quando entra um rap que surpreende pela esperteza e consciência. Só então “QueenS” aparece, entregando qual é a dinâmica do álbum – a alternância entre climas e a constante inclusão de novas facetas no som –, como se para impedir que este descambe para linhas mais sérias.

Essas variações de tom continuam até o fim, com “Existinct” sendo a balada agridoce, “Sweat” e “Needs” adicionando um pouco de latinidade na equação (de maneiras opostas, que fique claro), “Enchantruss” causando estranhamento com seus loops de vozes assombradas, “Juiced” trazendo uma languidez instrumental, “Crash” sendo a experiência despretensiosa, etc. Não há como negar também que a relação com Ishmael Butler e Tendai Maraire tem gerado frutos notáveis, já que “God” é um dos pontos altos do disco, com clima jazzy e um jogo de versos vigoroso (“my lord is a whore”).

E a viagem termina com intensidade: “naturalE” é uma anomalia entre Electro-funk e Rock em que a dinâmica entre as garotas funciona perfeitamente – enquanto Stas domina os momentos mais barulhentos, Cat canta sobre surdos e pads viajantes. Mais uma frase se destaca por resumir a sensação de ouvir o curto álbum: “feel our energy flowing through your mind”. Se era essa a intenção, elas acertaram em cheio, obrigando muita gente a deixar a atitude marrenta tão valiosa ao Hip Hop (o swag) pelo caminho. (Igor Cordeiro)

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Publicado às 10 de julho de 2012 por em álbum da semana e marcado , , .
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