Camarilha dos Quatro

Revista de crítica musical.

Catherine Christer Hennix & Chora(s)san Time-Court Mirage – Live at the Grimm Musem: Volume One (2012; Important, EUA [Alemanha])

Catherine Christer Hennix é uma artista, filósofa e matemática nascida em Estocolmo em 1948, e criada entre a Suécia e os Estados Unidos. Começou a estudar música nos anos 60, demonstrando interesse pelas obras de Karlheinz Stockhausen e Iannis Xenakis, mas sua real formação começou quando conheceu o compositor minimalista LaMonte Young e o músico indiano Pandit Pran Nath em 1970 e passou a ter aulas com ambos. Suas primeiras obras em música datam do começo dos anos 70. Hennix trabalha frequentemente com o filósofo e músico Henry Flynt, e participa de seus discos Dharma Warriors e Purified by the Fire. Nascida com o sexo masculino, Hennix adicionou Catherine a seu nome em 1990, quando adotou o gênero feminino. Em 2010, o selo italiano Die Schachtel lançou uma edição de luxo da obra The Electric Harpsichord (1976), junto com um livreto com dois poemas inéditos de LaMonte Young e ensaios de Flynt e de Glenn Branca. Live At The Grimm Museum: Volume One (2012) apresenta uma gravação ao vivo da faixa “Blues Dhikr Al-Salam (Blues Al Maqam)”, gravada no dia 14 de agosto de 2011 no Grimm Museum em Berlim, Alemanha, por Catherine Hennix e seu grupo The Chora(s)san Time-Court Mirage. (RG, AT)

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A obra de Catherine Christer Hennix é marcada por um processo tanto científico, em suas suposições matemáticas e outras relações um tanto quanto acadêmicas com o minimalismo e a música eletroacústica, teorias complexas que justificam uma experiência sensorial poderosa, como também por um processo místico e intuitivo em seus resultados isolados. O que, na verdade, não deixa de ser uma busca só, o científico em prol do místico e vice-versa. É nesse jogo de forças que a compositora inaugura novas e inéditas relações materiais com o som. Ligações astrais e espectrais, que se por um lado soam livres, e talvez até aleatória para alguns, escondem todo um caminho de estudos das mais diversas tradições musicais, do raga indiano ao Gagaku japonês, do chamado HESE (“Hallucinogenic Ecstatic Sound Experience”) compartilhado com o filósofo e músico Henry Flynt à vital convivência com La Monte Young e sua concepção de drone music, seus tons contínuos que invocam toda uma nova relação temporal, além de outras possibilidades harmônicas sempre subversivas que La Monte Young explora. Podemos dizer, inclusive, que a concepção de mundo de Hennix passa pela característica mais primitiva do som: a vibração. “The whole universe can be understood as just one single vibration. All atoms are continuously vibrating, the vacuum is vibrating, the whole cosmos is vibrating. When things vibrate, they generate these harmonics. Each harmonic is a state of nature. In physics, harmonics correspond to differnt states of matter. It´s empirical. As humans, we are reconfiguring them via the DNA molecule or whatever. When we hear these vibrations our system of molecules vibrates with them. You can think of sound as a medicinal tonic. You are exposed to sound as you are exposed to a liquid, and it may change your ground state, and you go from one state to another because you are exposed to this radiation of sound.” É o que Hennix diz, em um release postado no blog do Grimm Museum, uma definição certeira dessa qualidade física do som, de sua possibilidade material, quase medicinal; de sua capacidade de mudar estados e de afetar nosso corpo para além do emocional. A música como uma dimensão sensorial extrafísica que, naturalmente, parte da pura e simples física sonora.

“Blues Dhikr Al-Salam (Blues Al Maqam)” faz parte da série/conceito “Infinity Compositions”, composições sem um fim exatamente definido e baseadas em algoritmos controlados, cálculos binários contínuos em que Hennix cria trabalhos que causam essa espécie de experiência temporal única. Seguindo a tradição minimalista de La Monte Young, uma sonoridade que segue uma trajetória pontual e infinita, sem um começo, um meio ou fim, cíclica mas que, ao mesmo tempo, vai ganhando forças em sua repetição reflexiva. E de fato, ao ouvir os 49 minutos de “Blues Dhikr Al-Salam (Blues Al Maqam)” somos transportados para um outro tempo, ou pelo menos temos a nossa noção de duração questionada, já que o embarque sensorial na obra é quase instantâneo. O que mais surpreende aqui é a sinergia com que todos os elementos da faixa trabalham, desde a tuba microtonal, o trombone pontual, os efeitos eletrônicos sutis, e, especialmente, os sussurros hipnóticos e contínuos de Amelia Cuni e Catherine Hennix, tudo isso em prol de uma sensação de equilíbrio quase metafísica. O próprio nome da faixa significa remembrance of divine equilibrium, ou seja, o trabalho opera muito bem nessa tentativa de um nirvana sonoro, que busca um caminho tanto na matemática, em seu “algoritmo do infinito” e equilíbrios harmônicos, como na intuição desse mantra eterno, que tem variações sutis mas sempre muito bem apontadas.

Uma ciência deveras particular essa a de Catherine Christer Hennix, podemos analisá-la tanto pela física, usando de teorias e números, padrões e propostas complexas (que fogem do conhecimento da grande maioria dos ouvintes, incluindo este que escreve), como também podemos simplesmente intuir a qualidade sensitiva da obra, que no caso é extremamente forte e até grandiosa, mesmo que baseada em uma proposta cheia de sutilezas. E não é essa simples sutileza, a vibração primordial, que sintetiza todo o mundo? Lembrando das próprias palavras de Hennix. Quase um caminho de volta, do pó ao pó, o universo complexo dos algoritmos e cálculos binários é o mesmo que revela seu estranho equilíbrio nessa onda sonora espantosa e complexa, mas ao mesmo tempo meditativa e de uma beleza universal. (Arthur Tuoto)

Ouça um trecho de Blues Dhikr Al-Salam (Blues Al Maqam)

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Publicado às 12 de julho de 2012 por em álbum da semana e marcado , , .
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