Camarilha dos Quatro

Revista de crítica musical.

Peaking Lights – Lucifer (2012; Mexican Summer, EUA)

Peaking Lights é a dupla americana – formada na Califórnia e radicada no Wisconsin – por Indra Dunis e Aaron Coyes. Coyes foi membro de grupos como Rahdunes e Eoh, enquanto Dunis fez parte dos grupos Dynasty e Numbers. Os primeiros lançamentos do grupo são de 2008, um k7 epônimo, um split com Golden Jooklo Age e um tripartido com Second Family Band e Jooklo Duo. O primeiro álbum propriamente, Imaginary Falcons, foi lançado em 2010 pelo selo Night People. Mas foi apenas com o segundo, 936 (Not Not Fun, 2011), que o grupo conseguiu maior exposição e reconhecimento, saindo dos sons mais abstratos e forjando um híbrido de dub e indie lo-fi que eles mesmos intitulam de “dub pop psych”. Os meses seguintes viram o lançamento de dois EPs de remixes (Patten, Cuticle, Dam-Funk e Innergaze entre os remixadores). Lucifer é o terceiro álbum do Peaking Lights e foi lançado pelo selo Mexican Summer em junho de 2012. (RG)

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Logo após o lançamento de 936, o Peaking Lights se configurava como aquilo que vinha a ser a quintessência da psicodelia lo-fi aplicada à música dançante. “All the Sun That Shines” é um carro-chefe forte o suficiente para desencadear um estilo inteiro, e junto com os lançamentos de então de Amanda Brown com o L.A. Vampires, parecia estar surgindo um ensejo para a experimentação mais inventiva trabalhando presets básicos de bateria eletrônica, com seus timbres flat característicos, com pop açucarado e fortes pinceladas de vanguarda. Mas de lá pra cá, num período de do\e meses e a partir da criação da 100% Silk, a seara toda viveu um desvio para o house/disco lo-fi e para uma certa épica de karaokê em que o cetro de rainha se aplica mais a Maria Minerva do que aos Peaking Lights, que ficam um tanto deslocados no contexto (ainda que com claras ressonâncias, em especial o uso expressivo do lo-fi nos padrões rítmicos e o flerte desabusado com o pop). Coyes e Dunis não viraram os chefes do bando, o que em parte é uma pena, mas isso serve de alguma forma para mostrar o quanto o Peaking Lights no fundo está a milhas de distância da cena da “psych dance lo-fi” com seu “dub pop psych”. Em termos de proposta, mas também em termos de força artística.

Lucifer não repete a fórmula de 936. Não tem nenhum hino como “All the Sun That Shines” ou “Dub of Paradise” e as três primeiras faixas não contam com as levadas de baixo dubby que chamavam primeiramente a atenção no álbum anterior. Há uma introdução abstrata/climática, como no primeiro, e em seguida temos uma baladinha angelical intitulada “Beautiful Son”, inequivocamente um canto de embevecimento pelo nascimento do primeiro filho do casal (que, posteriormente no disco, faz uma “participação” com interjeições e choros de bebê em “LO-HI”). “Beautiful Sun” exala uma serenidade que povoa o disco inteiro, e ainda que o baixo, os presets de bateria e as pinceladas melódicas surjam a partir da terceira faixa restituindo a sonoridade mais característica do grupo, essa sensação hippie-psicodélica-panteísta de estar fazendo cantos de louvor à natureza jamais abandona o disco. Não é só o baixo e os espaços abertos do dub, mas o completo sentimento ritualístico que é não só apropriado mas reconfigurado para uma sonoridade própria.

O título da faixa seguinte, “Live Love”, ratifica o espírito do disco. Musicalmente a faixa é um dos maiores trunfos do Peaking Lights: duas pequenas melodias perfeitamente encaixadas, uma adocicada entonação da palavra “Together” e um ritmo galopante de bateria, pontuado discretamente pelo baixo, que evoca raggamuffin e reggaeton sem parecer exatamente com qualquer um deles. O disco pode ter outros momentos fortíssimos, mas “Live Love” é o ás na manga que renova e amplia o vocabulário sonoro da dupla. Em seguida, “Cosmic Tides” finalmente traz um groove lento e uma linha de baixo profunda com intervenções de teclado e sons cheios de delay pincelando os espaços deixados soltos pelo ritmo. A partir dessa faixa cai a ficha no “pop” associado ao “dub” da autodefinição da banda: eles alquimicamente conseguiram fundir cântico de devoção com as pegadas mais simples e imediatas que tanto cativam no pop.

A segunda metade de Lucifer é mais homogênea e sem sobressaltos sonoros do que a primeira, mas é igualmente deliciosa na audição e preciosa nos grooves e nas pinceladas ad hoc que fazem guitarra e synths por sobre o ritmo e a melodia do baixo. “Midnight (in the Valley of Shadows)” tem uma linha de baixo que evoca disco e assim remete mais aos amigos de 100% Silk. “Lo-HI”, afora o magnífico trocadilho que pode servir de recurso autoexplicativo da estética do duo – o que importa não é a fidelidade mas o quão “high” a música pode deixar –, tem uma contagiante levada de baixo com staccatos de teclado sobre as quais a voz de Dunis e os synths sobrevoam cosmicamente. “Dream Beat”, com ares de disco-salsa e um andamento mais agitado, é o único momento de pouco brilho do disco, sem deixas melódicas marcantes e com o espaço preenchido demais, mas ainda assim não faz feio no cômputo geral. “Morning Star” é uma coda discreta em que synths namoram com guitarra de forma harmoniosa, doce e etérea, sublinhando essas características ao fim da audição como aquilo que dá o tom para a inspiração do duo.

Lucifer talvez seja mais perfeito como álbum do que 936, mas não tem o senso de acontecimento que o álbum anterior parecia trazer consigo. Às cores fortes e às geometrias enviesadas da capa do primeiro substituem-se discretos branco e azul clarinho quase neon, como se quisessem dizer “agora não estamos mais chutando a porta, simplesmente estamos aqui, venham nos ver”. O patente grau menor de pressão do disco impede os vôos lá no alto (outro “All the Sun That Shines”), mas em compensação fornecem um clima ameno e insinuante no qual eles, vale dizer, se refestelam musicalmente. Há o Peaking Lights das expectativas, e conforme altas ou baixas Lucifer pode ser julgado mais ou menos favoravelmente. Mas nos termos próprios de evolução musical da dupla, não há dúvidas de que essa é mais uma obra vitoriosa e inspirada desse grupo que hoje parece pairar acima de estilos, fazendo seu som único por aí, descompromissado de cenas e gêneros, docilmente cantando a delícia de cada gesto e emoção. (Ruy Gardnier)

 

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Publicado às 24 de julho de 2012 por em álbum da semana e marcado , , , , , , , , .
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