Camarilha dos Quatro

Revista de crítica musical.

Keiji Haino, Stephen O’Malley & Oren Ambarchi ‎– Nazoranai (2012; Ideologic Organ, Áustria [França])

Keiji Haino é um multi-instrumentista japonês (Chiba, 1952) que desde os anos 70 participou de inúmeros grupos e desenvolveu extensa carreira solo, entre psicodelia, noise e improvisação livre. Stephen O’Malley (Seattle, EUA, 1974) é guitarrista e membro das bandas Sunn 0))), Aethenor, KTL e Khanate, entre outras, circulando simultaneamente nos meios de doom metal, drone doom e música improvisada. Oren Ambarchi é um músico australiano (Sydney, 1969) conhecido por seus trabalhos com guitarra processada e por gravações e apresentações de música improvisada com músicos que vão de Evan Parker ao Sunn O))), passando por Phil Niblock e John Zorn. Nazoranai surgiu do encontro destes três músicos durante uma apresentação ao vivo no Gâité Lyrique, Paris, em novembro de 2011. (RG, AT)

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Se por um lado podemos reconhecer facilmente o estilo de certos artistas do noise ou de qualquer sonoridade dita experimental (talvez o grande êxito para esses compositores seja, justamente, definir uma sonoridade identificável e particular, mantendo uma distância saudável de uma experimentação aleatória), por outro, o que mais se nota nessas zonas de experimentação é um número cada vez maior de colaborações e parcerias. O próprio Stephen O’Malley é, definitivamente, um dos mais prolíficos nesse sentido, seja por seus diversos projetos, cada qual com uma especificidade, seja por seu papel como uma espécie de agente entre esses círculos da vanguarda. O’Malley, no fim das contas, não busca se acomodar em uma carreira solo, muito pelo contrário, o músico parece que tem nessa política da coletividade um modus operandi dos mais fascinantes e, sempre, altamente funcional. Keiji Haino, um dos veteranos mais celebrados do noise, que ao lado de Merzbow já é uma espécie de mito do gênero, assim com O’Malley, também é acostumado com infinitas parcerias e colaborações. Sem falar em Oren Ambarchi, o catalisador desse encontro, dono de uma carreira solo invejável e colaborador de longa data do Sunn O))) e de tantos outros artistas. No fim das contas, é como se, depois de uma sonoridade pessoal já definida, vários desses artistas (muito além destes três), trabalhassem em prol de algo mais, buscassem novas possibilidades e, de alguma forma, novas aventuras para o gênero em si. Esse senso de coletividade, que já rendeu e ainda rende parcerias cada vez mais incríveis, é definitivamente um dos fatores que faz da música experimental (seja o noise, drone, free improv, etc.) talvez o campo mais produtivo e possibilitador da música contemporânea, com artistas que, ao invés de se alienear em uma busca meramente individual, constroem uma gama sempre rica e inspiradora, gerando híbridos dos mais particulares, como é o caso deste Nazoranai.

Poderíamos até dizer que a sonoridade do disco funciona basicamente no encontro entre duas estéticas mais ou menos definidas, o doom metal mais atmosférico, com sua bateria tétrica, seu baixo ressonante, que tem na imagem de O’Malley talvez seu grande representante, e a radicalidade do noise, mais especificamente desse noise sombrio e corrompido, nos gritos e sentenças demoníacas de Hano, além, é claro, de sua marca maior, a guitarra ríspida que aos poucos vai seguindo uma espécie de autodestruição em suas performances. Apesar desses extremos, ainda sobra espaço para a sutileza, a faixa introdutória “Feel The Ultimate Joy Towards The Resolve Of Pillar Being Shattered Within You Again And Again And Again #1” é bastante pontual nesse sentido, espécie de prólogo do imaginário subterrâneo que estamos por adentrar, Hano solta algumas palavras que soam um tanto quanto demoníacas, enquanto os instrumentos vão mantendo uma certa calma, ainda que sempre com a iminência que lembra a tensão progressiva de um bom filme de terror. Invariavelmente, em seus últimos minutos, a guitarra abrasiva de Hano já começa a tomar conta de tudo.

Gravado ao vivo em Paris, impossível não perceber a potência acústica dos instrumentos, e mais importante ainda, a maneira com que os três se comunicam durante toda a performance. A bateria de Ambarchi e o baixo de O’Malley, principalmente, mantém um diálogo sempre certeiro, “Feel The Ultimate Joy Towards The Resolve Of Pillar Being Shattered Within You II” é um bom exemplo dessa estrutura, com sua introdução rápida e ágil, fica claro que a base da performance é geralmente construída pelo bateria e pelo baixo, enquanto as distorções da guitarra de Hano vão entrando de uma forma mais independente, mas ainda assim agregando uma força e, claro, um diferencial vital. Esse detrito sonoro de Hano, aliás, talvez seja o grande destaque do disco, especialmente dentro dessa possibilidade da improvisação mais crua e performática. Definitivamente um álbum que, se por um lado na audição caseira não deve fazer exatamente jus ao que aconteceu durante a apresentação (acredito que só estando lá mesmo), de alguma forma nos dá uma bela ideia da combinação mais do que inspiradora que é esse trio de gigantes. (Arthur Tuoto)

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Publicado às 1 de agosto de 2012 por em álbum da semana e marcado , , , , , .
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