Camarilha dos Quatro

Revista de crítica musical.

Plvs Vltra – Parthenon (2012; Spectrum Spools, Áustria [EUA])

Plvs Vltra é um projeto solo de Toko Yasuda, cantora, tecladista e baixista japonesa. Na ativa desde 1992, Yasuda já passou por diversas bandas alternativas como The Lapse, The Van Pelt, Blonde Redhead e Enon. Atualmente ela toca sintetizador na banda da cantora St. Vincent. Lançado pela Spectrum Spools, subselo da Editions Mego, Parthenon é o primeiro trabalho solo de Toko Yasuda, o disco conta com partipações de Danny Ray Thompson do Sun Ra Arkestra, Scott Allen do Thunderbirds Are Now, Thomas Keville do Man Man e John Schmersal do Enon, que produziu o álbum. (AT)

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O que significa fazer música pop hoje? Ou ainda, é possível fazer música pop de vanguarda? Se para alguns a única possibilidade está em uma certa nostalgia redutora (Ariel Pink, chillwave e outros pseudo-gêneros calculados), ou em um flerte levemente domesticado do mainstream com o “underground” (Rihanna e Nicki Minaj em algumas faixas isoladas, pra ficar em dois casos recentes), além de toda uma infinidade de híbridos excêntricos; existe, ainda, aqueles que de fato conseguem se manter longe de uma sonoridade simplesmente derivativa e aleatória dentro desse contexto. Maria Minerva e suas aventuras com o synth-pop e o disco corrompido talvez seja o caso mais emblemático, ainda que a própria Minerva, em alguns momentos, seja vítima de um discurso por vezes consciente demais em entrevistas e outras falas (a referência erudita que legitima e subverte a estética dominante periga criar um padrão premeditado), mas que por enquanto, felizmente, não interfere na cada vez mais inspiradora sonoridade da artista. Mesmo o Girls, com seu caleidoscópio sonoro afetivo, não deixa de remeter a um imaginário rock e pop que, se por um lado também soa nostálgico, por outro, assim como Maria Minerva, faz da referência não um instrumento de domesticação, mas sim uma ferramenta vital nesse movimento da apropriação criativa. Não que esses exemplos citados sejam tão definidores assim, isso só o tempo mesmo irá dizer, mas, querendo ou não, são casos curiosos que passam uma ideia vaga que seja de como o pop vem sendo tratado, especialmente quando é colocado em seus limites conceituais e estéticos, seja pelo bem ou pelo mal.

Este disco solo da japonesa Toko Yasuda não se encaixa exatamente em uma das vertentes acima, poderíamos até compará-lo com uma diversidade de propostas de um tipo de psicodelismo indie que já esteve em voga, mas mesmo assim, sua gama de referências é mais rica do que isso. Poderíamos também reconhecer bastante influência do rock alternativo em sua sonoridade, definitivamente devido a passagem de Yasuda por diversas bandas do gênero, mas o que impressiona mesmo, e consequentemente funciona como a tônica do disco em si, é uma espécie de colagem eletrônica sempre muito ágil, de timbragem até um pouco excêntrica, com seus samples luminosos que remetem desde um synthpop explosivo a temas de animes e outras sonoridades orientais, passando ainda pelo electro e até um pouco de dub, porém, tudo sempre amparado por uma atmosfera pop, uma estrutra forjada por refrões, ganchos e um vocal melódico sempre cativante.

“Flowers to bees” é um bom exemplo dessa programação eletrônica em prol de um esqueleto avant-pop, ao mesmo tempo em que a faixa é complexa em suas texturas e ágil em seus movimentos, fica sempre à mercê desses limites da canção pop. Não que as faixas do disco sejam reféns dessa estrutura, pelo contrário, Yasuda é extremamente habilidosa nesse jogo de subversão, criando essas espécies de puzzles infantilizados, pequenos tratados musicais que seguem regras basante particulares dentro de uma dimensão própria. “Parthenon” parte dessa mesmo destreza e constrói uma canção lúdica em sua atmosfera, mas sempre rápida em suas progressões. “Sweet Tooth” já transforma o lúdico em puro psicodelismo futurista, com seus synths sempre caóticos, seu vocal sobreposto e todo tipo de sonzinho robótico muito bem plantado nessa espécie de painel fluorescente, saborosamente desordenado e pouco previsível.

Se fazer música pop, nos dias de hoje, revela todo um mar de possibilidades ainda pouco exploradas, sendo Parthenon um desses pequenos e inspiradores achados, o que significa consumir música pop nos dias de hoje? Se o conceito de pop agora é mais calculado e milimetricamente programado do que nunca, levando em conta tendências e outros fatores estéticos do mercado, não podemos também reconhecer essa mesma estratégia na música dita alternativa? Toda o deslumbre com esse disco do Purity Ring, pra ficar em um exemplo recente de um trabalho obviamente estruturado dentro de um conjunto de variações calculadas, e só um dos casos de um marketing que nem a cena independente ou alternativa está livre. Se estamos em uma crise com o conceito de originalidade, condenados a uma nostalgia que é até bastante funcional, mas se desfaz rapidamente em qualquer análise ou em uma simples audição mais profunda, não seria o ato de subverter a estética dominante, usando de seus próprios elementos e estruturas, uma bela saída? Não que a ideia seja nova, o pós-modernismo já trabalha com essa possibilidade desde a década de 60, mas são casos como esse que nos provam que a coisa, se bem feita, ainda funciona como nunca; o próprio Animal Collective talvez seja uma das mais bonitas respostas a tudo isso. Parthenon não é um disco perfeito, mas ensaia uma tentativa grandiosa e sintomática de seu tempo, pois que surjam outras! (Arthur Tuoto)

Ouça Sweet ToothParthenon

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Publicado às 12 de agosto de 2012 por em álbum da semana e marcado , , , .
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