Camarilha dos Quatro

Revista de crítica musical.

Fay – Din (2012; Time No Place, EUA)

Fay é a cantora e compositora Fay Davis-Jeffers, nascida em Vermont (EUA) mas estabelecida em Los Angeles. De 2004 a 2010, fez parte do trio Pit er Pat como vocalista e tecladista, com Rob Doran (do Alkaline Trio) no baixo e Butchy Fuego na bateria. A banda lançou quatro álbuns, os três últimos sendo pelo reconhecido selo Thrill Jockey, Depois de virar um duo apenas com Fay e Butchy, o Pit er Pat encerrou suas atividades. Din é o primeiro lançamento de Fay como artista solo.

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Din traz duas intensas sensações no primeiro contato: primeiro, uma audaciosa mistura de deliciosos teasers de R&B/pop com um tratamento minimalista-vanguardista à base de loops que seduz e desorienta; em segundo lugar, vem a sensação de que falta alguma coisa às faixas, seja em termos de desenvolvimento ou de preenchimento melódico. Mas essa sensação de espaço em branco não funciona na chave de uma ausência de expressão (falta de talento ou preguiça em de fato terminar as faixas), e sim num apreço pelos aspectos quase ritualísticos, na verdade labirínticos, da repetição e do poder de suíngue que as batidas complexas e quebradas saídas do MPC provocam. Em seu disco de estreia, Fay aparece na cena com a imponência de uma Micachu quando surgiu, há um par de anos: as faixas não convencem inteiramente, mas existe uma exuberância tão grande de sons a serem apresentados, sons que curto-circuitam tão deliciosamente barulho e melodia, que a entrega torna-se inevitável. Não é toda hora que surge alguém com um notável talento para a criação de climas e que ao mesmo tempo faz questão de esnobá-los em termos pop, e ao invés disso remonta cubisticamente suas construções elaborando quebra-cabeças rítmicos.

Estamos em terreno híbrido com Din. Essa sensação de hibridismo é provocada pelas deixas de R&B e pelo sentimento de “quero mais” provocado pelas falas-slogan que povoam metade das faixas desse curto (32min) álbum. Num outro contexto (dub, glitch), essas deixas seriam apenas o que são, pequenos motivos que estruturam faixas, mas aqui o flerte com o pop instaura outra relação de expectativa e outra carnalidade, transformando cada faixa de Din num bombom com recheio de absinto. Passeando por cada música, temos a sensação de alguém que digeriu muito bem a economia de Timbaland, o poder evocativo dos loops de Panda Bear e a força das inovações polirrítmicas do footwork. O resultado soa muito mais com o terceiro, pelas ênfases rítmicas e pela espécie de “desenvolvimento regressivo” do trabalho com os loops do MPC, mas com um requinte de talho reminiscente dos dois outros artistas citados. O modo como os espaços vazios incitam a criatividade a flutuar é nada menos que deslumbrante… e sexy.

“Talk With My Body” é uma das faixas mais “cheias” de Din. E ainda assim ela tem uma letra de dois versos, uma linha de grave – quase um riff – que aparece duas ou três vezes, uma batida feita com bongôs e uma “melodia” consistindo num barulhinho à la theremin. E ainda assim o resultado é basicamente esquelético, uma colagem cubista de dois ganchos vocais de, digamos, Azealia Banks ou M.I.A. com formidáveis aberturas de espaço e preenchimento de células rítmicas. “Between” representa, em oposição, o aspecto menos cheio, e talvez mais representativo do disco: 81 segundos de um fraseado de piano que sobrevoa por uma batida levemente quebrada e até mesmo convencional para os padrões que o disco estabelece. Mas ela tem a virtude de explicitar um outro ponto forte do disco: a opção pelo imediatismo de uma melodia ou um gancho, conjugando as belezas “automáticas” (os sons que de reflexo, culturamente, identificamos como eufônicos) com as belezas mais construídas e labirínticas. Há faixas de destaque evidente, como “How It Feels Good” e a já comentada “Talk With My Body”, mas o que no fim das contas surpreende em Din é a consistência inteira do disco, o modo como ele parece se construir como uma suíte, desenvolvendo alguns temas e preocupações de forma discreta e envolvente, muito econômica, fazendo de seu centro delicadamente um som de piano ou escaleta ou um fragmento vocal, e ao final entrega um conjunto bastante eloquente em seu minimalismo. É um colírio auditivo para servir de antídoto àqueles que enchem o som e tentam transformar bass music em rock de arena, mas no fundo é muito mais: é um talento genuíno aflorando e deixando entrever muita coisa boa a vir adiante. Vida longa a Fay! (Ruy Gardnier)

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Publicado às 13 de agosto de 2012 por em álbum da semana e marcado , .
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