Camarilha dos Quatro

Revista de crítica musical.

Sir Richard Bishop – Intermezzo (2012; Ideologic Organ, Áustria [EUA])

 

Sir Richard Bishop é um músico e instrumentista (guitarra, violão) nascido em Phoenix, Arizona (EUA). de 1979 a 2007, fez parte do grupo experimental Sun City Girls com seu irmão Alan Bishop e com Charles Gocher. Juntos, lançaram mais de 50 discos e tornaram-se pioneiros na fusão de rock com música improvisada e influências multiétnicas. Seu primeiro álbum solo, Salvador Kali, foi lançado em 1998, pelo selo Revenant, de John Fahey. Mas sua carreira solo só engrenou a partir de 2004, com extensivas turnês e diversos discos lançados (entre eles Improvika, 2004; Polytheistic Fragments, 2007; While My Guitar Violently Bleeds, 2007; The Freak of Araby, 2009). Sua música é caracterizada pelo domínio de diversos estilos de guitarra, ocidentais e orientais, e pelo flerte com diferentes tradições. Paralelamente a isso, Bishop é também um dos fundadores do selo Sublime Frequencies, selo especializado em lançar álbuns com música de diversos pontos diferentes e pouco valorizados do globo. Intermezzo foi lançado em CD-R em 2011 e relançado em vinil por Stephen O’Malley, em seu selo Ideologic Organ, em 2012.

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As últimas notícias que tínhamos de Sir Richard Bishop nos contavam de sua fascinação pelo estilo de Omar Khorsid e pelo flerte com a música árabe, rendendo releituras, composições próprias e uma banda de acompanhamento (The Freak of Araby, Live Recordings 2009). Mas uma olhada em sua discografia recente revela um punhado de CD-Rs de edição limitadíssima, um reverenciando Django Reinhardt, outro com colaborações (Tatsuya Yoshida e Eugene Chadbourne entre os parceiros), além de um álbum com técnicas experimentais, Graviton Polarity Generator (2010). Cada disco geralmente aponta uma faceta e uma área de interesse e paixão desse músico absolutamente singular no gosto e no modo de se deixar influenciar, mas quando eventualmente surge um álbum que conjuga estilos variados dentro de um conceito, mesmo que bem amplo, aí sai de baixo: é Sir Richard Bishop explorando cada minúcia e desenhando uma vasta tapeçaria das muitas formas de se exprimir através das seis cordas acústicas ou eletrificadas de seu instrumento de predileção. Polytheistic Fragments já em seu título explicitava a multiplicidade de formas de chegar ao divino e simultaneamente unificava o conceito (música de contato com o mistério da existência). Intermezzo, como título, é mais ambíguo, ou de sentido mais obscuro. Não é, isso está claro, uma pausa, nem um momento para pensar e para recobrar o fôlego. Se tanto, é o próprio fôlego, aquele momento de pausa em que a respiração se faz livre e a inspiração flutua tal qual uma pluma ao vento, e as amarras da estrutura são apenas um convite ao fluxo intuitivo da inspiração.

“Intermezzo” é então esse instante liberador de pausa. Mas uma pausa ancorada em muitas coisas, tanto no gênero (jazz anos 30, folk tradicional, canção árabe, raga) quanto em tradições (o folk de formas livres, a música para dançar em épocas e culturas distintas). Só que para Richard Bishop, antes de prender, as formas tradicionais libertam, elas dão à expressão um caráter coletivo (para a música de dança é preciso também os dançarinos, o pulso etc.) e tiram do músico as amarras do tecnicismo vazio e vaidoso, o preciosismo tão comum dos músicos virtuosos. Em Intermezzo, mesmo o fraseado mais difícil levita na audição com a mais absurda das naturalidades, da mesma forma como a melodia mais angelical navega longe das potenciais acusações de música de elevador. Cada cadência de nota, cada volume parece minuciosamente estudado mas, paradoxalmente, carrega todo um ímpeto de ter surgido naquela hora, naquele momento. É como se Bishop usasse seu domínio da técnica e a incorporação dos gêneros como uma forma de fazer um curto-circuito da inspiração (menos subjetiva que “cósmica”) ao dedo. Tudo em Intermezzo soa pessoal, mas misteriosamente nada soa egóico. O subjetivo de Richard Bishop é inter- e multissubjetivo.

“Inner Redoubt” abre o CD-R original com a música mais longa e delicada do disco, quinze minutos de folk bem solto em que o violão parece ser tocado como uma harpa e as construções se fazem e se dissipam com uma singeleza absurda. No relançamento da Ideologic Organ a honra de iniciar os trabalhos fica por conta de “Dust & Spurs”, mais eloquente e vibrante no andamento e nas forças das palhetadas, e fazendo brotar um imaginário de folk tradicional americano. Cada faixa toma para si um estilo específico, desde algo muito direcionado – “Hump Tulip” é Django Reinhardt, “Dance of the Cedars” é Omar Khorsid – até técnicas experimentais como “Reversionary Tactics”, em que uma guitarra cheia de efeitos dialoga com uma base de guitarra tocada ao contrário e produzindo notáveis efeitos de fraseado com sua lógica manutenção-ataque invertida, ou “Cranial Trap”, um amontoado de staccatos abafados que parecem um esforço hercúleo de um guitarrista que luta contra suas próprias habilidades. O resultado é uma deliciosa luta contra a ressonância natural do instrumento como se viu poucas vezes, e a maioria com Derek Bailey.

Os destaques do disco vão depender do gosto pessoal de cada ouvinte, mas é difícil não pender a sensibilidade para as infusões de raga e de blues de “Dhumavati”, com suas notas lentamente se perdendo numa poeira doce e melancólica, ou como a pequena joia que é “Molasses”, dulcíssima peça da mesma cepa de onde vieram “Quiescent Returns” e “Ecstasies in Open Air” em Polytheistic Fragments, com delicadezas de dedilhado e dinâmicas de volume de deixar boquiaberto e com o coração aquecido. Intermezzo é um disco de beleza aviltante, que a cada audição se torna mais íntimo e obrigatório. E, para algo que poderia se parecer com um “The Sir Richard Bishop Reader”, é brutalmente não-totalizante: leve, misterioso, exigente, sutil e inspirador como poucos discos conseguem ser. E fora tudo isso, o disco é, de forma enfática, o que qualquer disco de Bishop sempre será: uma eterna reformulação da grande pergunta de qualquer instrumentista digno desse nome (mas feita tão poucas vezes, infelizmente): “O que será que pode fazer essa coisa que eu estou segurando?” (Ruy Gardnier)

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Publicado às 14 de agosto de 2012 por em álbum da semana e marcado , , , , , , .
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