Camarilha dos Quatro

Revista de crítica musical.

Aesop Rock – Skelethon (2012; Rhymesayers, EUA)

Aesop Rock é o pseudônimo de Ian Matthias Bavitz, rapper e produtor norte-americano. Sob esta alcunha, Ian Bavitz foi um dos artistas mais importantes a surgir durante a época de ouro da Definitive Jux, gravadora criada por El-P e responsável por grandes discos do hip-hop independente, lançados principalmente no começo dos anos 2000. Os dois grandes clássicos da Def Jux talvez sejam The Cold Vein (2001), debut do Cannibal Ox, e Labor Days (2001), o terceiro álbum de estúdio do Aesop Rock. Depois de Labor Days, Bavitz ainda lançou Bazooka Tooth (2003) e None Shall Pass (2007), ambos também pela Definitive Jux. Skelethon (2012) saiu pela Rhymesayers Entertainment. (AT)

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Falar da “geração Def Jux” é falar de uma das iniciativas mais definidoras do hip-hop contemporâneo. Se The Cold Vein e Labor Days são panteões sempre presentes nas listas dos mais representativos discos do hip-hop, é sempre desanimador ver seus autores caindo em um relativo esquecimento. Ou, se não exatamente em um esquecimento, já que sempre existiu um público fiel a esses artistas, é bastante óbvia a distância, talvez até saudável aos olhos de alguns, que eles mantêm do mainstream. Mas ao contrário do Cannibal Ox, que viu a possibilidade de um segundo disco cair em uma série interminável de especulações (ainda que Vast Aire esteja na ativa, enquanto pouco se escuta sobre Vordul Mega) Aesop Rock continuou seu caminho, um caminho, diga-se de passagem, cada vez mais particular e até individualista, recluso tanto em suas temáticas e sonoridade, como em seu cotidiano, já que o próprio Bavitiz assume que vive praticamente isolado. Em Skelethon, particularmente, temos uma atmosfera até mesmo mórbida, muito devido as diversas menções de Bavitz a seu amigo e parceiro Camu Tao, falecido em 2008, outra figura importante da Definitive Jux, parte do supergrupo The Weathermen, e que também foi lembrado por El-P quando este lançou seu disco Cancer 4 Cure, dedicado a Tao. Sem falar em um recente divórcio com sua esposa que também contribui para todo esse imaginário sombrio. Todos esses fatos, fazem de Skelethon uma espécie de coleção negativista, a própria ideia um tanto quanto mórbida do esqueleto como uma espécie de guia conceitual já é clara. Resumindo: a morte, em suas qualidades simbólicas e imaginativas, como uma profusão criativa.

Por mais que soe dramático, o disco funciona em quase todos os sentidos dentro dessa estética da morte e do isolamento. Com nenhuma participação de outro rapper, sendo que o único vocal, além do de Bavitz, é o de Kimya Dawson na faixa “Crows 1”, o disco não conta nem mesmo com a participação do mago do sample Blockhead, colaborador mais do que frequente e responsável por grandes obras-primas de Bavitz. O resultado é um trabalho simbólico, abstrato e, acima de tudo, extremamente sombrio. Para isso, são invocadas imagens chaves e mesmo narrativas peculiares, “Cycles To Gehenna” narra a saga de um motoqueiro pela noite, com direito a toda imagem tétrica e divagação surreal que isso possa trazer, ainda fazendo menção a morte de Camu Tao – “Here is how a great escape goes when you can’t take your dead friends names out your phone” – um escapismo agressivo que encontra um dinamismo sonoro particular no jogo entre as batidas e o loop de um piano. “Ruby ’81” é outra que incorpora uma imagem simbólica, com uma atmosfera quase cinematográfica (as vozes ao fundo, a progressão lenta mas sempre crescente da base), a faixa narra a história de um cachorro que salva a vida de uma criança que se afoga em uma piscina durante as comemorações de 4 de julho. Outra vez, o espectro da morte que assombra uma situação específica, uma qualidade narrativa em prol de um conceito de todo. Indo para um caminho mais lúdico, temos a inusitada participação de Kimya Dawson, “Crows 1” é quase um jogo infantil de terror, descrita por Bavitz como “uma canção sobre cemitérios”. Novamente percebemos a imagem ausente de Camu Tao como geradora de uma melancolia sombria. “And they call to let you know your friend is dead in a box / The crows have the tools to get the meat out of the box / Scientific, ritualistic, headstone cold foxes still rot / I’m not gonna rot, no, fuck that snot”. Sem falar no vocal infantilizado de Kimya, que deixa tudo mais aterradoramente calmo, como em uma espécie de fábula folclórica. “Gopher Guts” é a porrada final, o puro reconhecimento do próprio Bavitz como uma espécie de persona das sombras. Com uma percussão seca e uma espécie de drone sempre presente ao fundo, um sample vocal de um sussurro distante que aparece de tempos em tempos, a faixa funciona como um confessionário inconsequente. “I have been completely unable to maintain any semblance of relationship on any level / I have been a bastard to the people who have actively attempted to deliver me from peril / I have been acutely undeserving of the ear that listen up and lip that kissed me on the temple“. Os versos finais seguem nessa primeira pessoa que se por um lado pode parecer cheia de remorsos, é completamente consciente de seus atos e de sua posição no mundo.

Ainda que o disco flerte com imagens tétricas, que vão desde passeios surreais de moto pela noite, cemitérios, mumifação de gatos mortos e por aí vai, Skelethon, por mais que seja esse pesadelo alucinado, é, ainda, um pesadelo calmo, mesmo lúdico, sempre fantasioso. Todo o simbolismo e os espectros que rondam o trabalho fazem do disco uma espécie de enigma do assombro, mais do que isso, o trabalho é de uma poética complexa e fresca pouco antes vista no gênero. Junto com R.A.P. Music, de Killer Mike, podemos dizer que o hip-hop independente, apenas com estes dois discos, vive um dos seus mais inspiradores anos. Estes autores, Killer Mike e Aesop Rock, vão além de uma simples composição, pois tem a maturidade autoral para a realização de hinos, cantos e poemas; petardos literários que devem ser contemplados e celebrados como tais. Sorte a nossa de presenciar a obra atual desses veteranos, que se por um lado andam desacreditados ou até esquecidos, fazem desse isolamento uma força motriz para continuarem mais ativos e inspirados do que nunca. (Arthur Tuoto)

Ouça “Cycles To Gehenna” e “Gopher Guts

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Publicado às 18 de agosto de 2012 por em álbum da semana e marcado , , .
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