Camarilha dos Quatro

Revista de crítica musical.

brackles – rinse presents: brackles (2012; rinse, reino unido)

Brackles é Rob Kemp, DJ e produtor londrino que desde 2009 vem lançando singles em catálogos como Planet Mu, Apple Pips e Rinse. Da parceria com Mickey Pearce, também conhecido como Shortstuff, nasceram o selo Blunted Robots e algumas faixas colaborativas. Kemp também faz parte do time fixo da Rinse FM, tendo lançado seu primeiro álbum pelo catálogo da rádio. (IC)

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Eis um álbum que, apesar do frescor de seus climas e humores, e de ter sido lançado há menos de seis meses, vem carregado de um curioso sentimento de nostalgia por um passado que se coloca próximo demais para nos fazer enquadrar seu autor como um revivalista e, de um determinado ponto de vista, levemente defasado, limitando o teor de novidade da empreitada. Há dois anos, a Rinse nos apresentava o primeiro LP do Roska, que não deixava de ser consequência direta da então recente explosão do UK Funky no underground britânico, mas também continha um espírito aventureiro responsável por imprimir uma visão futurista ao conjunto das faixas – beirando o hermetismo em momentos específicos. O próprio Roska parece ter abandonado esse espírito, se mostrando muito mais contido em seu álbum seguinte. Numa direção contrária à experimentação de seu colega de trabalho, o interesse do Brackles reside no formato de UKF já consolidado pela Rinse – basicamente House Music sincopada, carregada nas influências latinas e africanas e consciente do passado musical dos clubes britânicos (o chamado hardcore continuum).

Não são poucos os momentos de Rinse Presents: Brackles nos quais Rob Kemp dá a impressão de estar buscando a fórmula perfeita para esse tipo de música, fato que dota seu trabalho de uma missão no mínimo mais imponente do que apenas fazer dançar. E, justiça seja feita, também não são poucas as faixas que alcançam um patamar praticamente irretocável nessa intenção de aperfeiçoamento – que supomos deliberada. Abrindo o disco, a parceria com Lily McKenzie é matadora, atestando os talentos tanto do produtor no sequenciamento e arranjos, quanto da vocalista, que paira absoluta – assim como nas suas colaborações com a dupla FunkyStepz e o FaltyDL. Certamente Kemp precisou de muita segurança para entregar logo no início do LP uma de suas faixas mais completas e acessíveis, e talvez o tenha feito porque, ao menos em termos de colaborações com vocalistas, felizmente o padrão não muda drasticamente durante a audição – “DPMO”, com participação de Terri Walker, é outro grande destaque. As parceiras de Kemp versam sobre as relações efêmeras que se desenvolvem na pista de dança, com uma inocência digna de colegiais que depositam na noite de sábado todas as esperanças de sentirem novas emoções. A recorrência do tema é o que dá identidade ao álbum: Brackles deixa claro que esse material pertence à pista, e quando atentamos para a duração de cada faixa, fica perceptível que esse não é um aspirante a álbum Pop.

Na parte instrumental do disco, por outro lado, nota-se a ausência de um carro-chefe, alguma faixa própria para o ponto alto da noite. Nessa esfera, Kemp desenvolve construções mais profundas, quase progressivas, mudando o foco para os arranjos e texturas e deixando os ganchos catárticos de lado. Momentos como “Lighthouse”, “Walkin’ Out”, “Squarehead” e “Blazeby” ostentam uma paciência admirável na construção de seus climas, principalmente se lembrarmos tratar-se de um álbum para dançar. Mesmo a safada “X Ray Specs” conquista sem pressa alguma, adicionando elementos adoráveis a cada virada. Ainda que não se destaque qualitativamente do conjunto, “Too Much” é o único momento em que Brackles foge de todos os padrões anteriormente descritos. Mais próxima da secura do Grime que do suingue do UKF, é a faixa mais agressiva do disco – se é que podemos usar esse adjetivo aqui – envolvendo mais pelo assalto aos sentidos que pelo charme esbanjado em outros momentos da audição. Por mais que os padrões de Kemp sejam altos na maior parte do tempo, “Too Much” permanece como o passo além que seria muito bem-vindo num futuro próximo. (Igor Cordeiro)

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Publicado às 21 de agosto de 2012 por em álbum da semana e marcado , , , .
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