Camarilha dos Quatro

Revista de crítica musical.

Fennesz – AUN (2012; Touch, Reino Unido [Áustria])

 

Christian Fennesz é um músico austríaco (Viena, 1962) que utiliza guitarras, sintetizadores e processamentos eletrônicos para construir uma obra frequentemente situada entre o glitch, o noise e o ambient. Seu primeiro álbum é Hotel Paral.lel, de 1997 (Mego). Ganhou maior projeção com Endless Summer, de 2001, seu segundo álbum, que tornou-o conhecido por sua utilização conjunta de melodia e ruído. Em seguida vieram Venice (Touch, 2004) e Black Sea (Touch, 2008). Além de seus discos solo, Fennesz tem uma extensa carreira colaborativa, em especial com o conjunto Fenn O’Berg (com Jim O’Rourke e Peter Rehberg), com Ryuichi Sakamoto e com Keith Rowe. AUN é trilha sonora para o longa-metragem AUN: The Beginning and the End of All Things, do cineasta austríaco Edgar Honetschläger. Apesar de uma já extensa carreira de trilhas para cinema, AUN é o primeiro lançamento em forma de álbum (outros filmes com trilha de Fennesz: Beyond the Ocean [2000], Blue Moon [2002], Khadak [2006] e Film Ist a Girl & a Gun [2009]. AUN é composto de três faixas em colaboração com Ryuichi Sakamoto, já presentes no álbum Cendre (Touch, 2007), e doze inéditas faixas solo. (RG)

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A magia do trabalho de Christian Fennesz reside em boa parte no equilíbrio que ele mantém entre as sonoridades celestiais e as profundezas ocultas, as primeiras evocadas através de seu delicado trabalho de dedilhados de guitarra e escolhas de timbres sintetizados, além dos volumosos acordes de sintetizador; enquanto, do outro lado, cabem aos ruídos brancos, aos glitches e à massa sonora criar um contrabalanço para as formações sonoras mais apolíneas do lado celestial. Analisando seus trabalhos solo exclusivamente, é nítido que existe um encaminhamento das trevas para a luz, ainda que esse processo não se faça de modo tão frouxo ou maniqueísta. Acima de tudo, o que deixa transparecer ouvindo seus trabalhos em sequência, como quem estivesse acompanhando uma obra seriada, é uma fixação maior na materialidade específica de alguns sons em detrimento dos ásperos jorros de camadas em alto volume presentes nos primeiros discos. Disso resulta que a música agora soa muito menos rock’n’roll (o Fennesz dos primórdios era frequentemente associado, apropriadamente, ao shoegaze do My Bloody Valentine) e muito mais “modern classical”, mas isso é absolutamente contingencial. O essencial é que, mesmo reduzindo o espectro de sinfonia para sonata, existe um mesmo encaminhamento para delicadas paisagens sonoras que frequentemente evocam espaços abertos, sensações térmicas ou instantes reflexivos da consciência. A predileção por atmosferas dá mais propriamente as caras quando é motivada pela feitura de uma trilha sonora, uma música feita para adicionar algo à imagem, não para dominar completamente as atenções, oferecendo porosidade às imagens e trabalhando conjuntamente com elas. AUN revela um Fennesz compondo para brisas e não para redemoinhos, pincelando synths mais à moda da caligrafia japonesa do que aos esguichos de Pollock com os quais ele outrora foi referenciado. Em todo caso, continuamos tendo diante de nós um grande trabalho de pintor.

As coisas mais ruidosas de AUN são as partes de Fennesz nas colaborações com o doce e elíptico piano de Sakamoto, faixas que ganham em dinâmica sendo ouvidas espaçadamente e com peças de organização diferente ao lado delas. As doze composições originais de Fennesz, quase todas curtas – média de 3min –, têm todas o tom meditativo e um certo espaçamento instrumental, geralmente notas longas e abertas de sintetizador ou dedilhados de instrumento orgânico limpo (ou parcialmente limpo, para padrões do próprio Fennesz), quase sempre violão mas também piano (“Mori”). O máximo de “colossal” aqui são os efeitos cavernosos na ressonância deformada de alguns sons. Por outro lado, aproveitando os questionamentos entre homem e natureza proporcionados pelo filme, AUN está cheio de esguichos vaporosos de synth produzindo camas sonoras tênues para as intervenções pontuais de instrumentos que nunca acedem a um fraseado (“Sekai”, “Himitsu”). A única faixa que se estrutura em termos mais melódicos do que em pinceladas esparsas é “Nympha”, que evoca em clima e sonoridade alguns momentos de Endless Summer (em especial a faixa-título).

Alguns artistas sobressaem quando fazem trilhas sonoras, mas no caso de Fennesz estamos diante de uma obra parcial: temos saciado o desejo de ouvir material novo de um dos artistas mais significativos de nosso tempo, mas o ouvimos numa modalidade mais discreta e moderada, longe das grandes intervenções líricas que vemos de cabo a rabo em seus discos solo. Aqui é Fennesz quase exclusivamente como criador de climas, como escultor ambient, e nessa chancela o mago austríaco também se revela um exímio artista, criando sons que evocam uma temporalidade difusa, beirando a sensação de eternidade (os títulos das faixas em japonês se traduzem “luz”, “morte”, “o mundo”, “segredo”, “dormir”, estados de espírito ou mistérios metafísicos), remetendo assim ao trabalho de artistas que por outros caminhos suscitam uma natureza atemporal/intempestiva do som, como Leyland Kirby e Philip Jeck. AUN é um meio de percurso, sedutor, sensorial, sutil e denso. Uma oficina de atmosferas mais que um “verdadeiro” disco solo: quem ouvir o disco com essa imagem em mente estará na faixa de sintonia perfeita para captar as filigranas de mais um belo disco criado por Christian Fennesz. (Ruy Gardnier)

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Publicado às 30 de agosto de 2012 por em álbum da semana e marcado , , , , , .
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