Camarilha dos Quatro

Revista de crítica musical.

Mika Vainio – FE3O4 – Magnetite (2012; Touch, Reino Unido [Finlândia])

Mika Vainio é um músico finlandês nascido em 1963. É fundador do grupo Pan Sonic (anteriormente Panasonic) junto com Ilpo Väisänen e Sami Salo. Com a saída de Salo em 1996, o Pan Sonic ficou sendo um duo. Entre os lançamentos mais importantes do projeto estão Vakio (1995), Kulma (1996), Aaltopiri (2000) e Katodivaihe (2007). Além do trabalho no Pan Sonic, Mika Vainio lança trabalhos solo com seu próprio nome e com o projeto Ø, que existe desde 1993, além de ultimamente tocar em sessões de improvisação com artistas como Keiji Haino, Vladislav Delay e Sean Booth. Alguns de seus álbuns são Onko (1997), Kajo (2000), GRM Experience (2004, com Christian Fennesz e Christian Zanési), Aíneen Musta Puhelin/Black Telephone of Matter (2009) e Life (…It Eats You Up) . FE3O4 – Magnetite é seu oitavo álbum solo e seu quinto lançamento solo pelo selo Touch. (RG)

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FE3O4 é a fórmula química da magnetita, o mineral mais magnético do planeta. “Magnetismo”, no entanto, não é uma senha que organiza auditiva e logicamente tudo que se ouve em FE3O4: os sons que ouvimos ao longo de sua duração não são obtidos através de efeitos óticos derivados do magnetismo nem provêm de uma interpretação subjetiva, criativa, autoral, do fenômeno. Se há uma possível explicação para nortear os conteúdos sonoros a partir do título do disco, é o poder de atração entre “máquinas de som” distintas, sejam elas ondas de rádio, sons produzidos eletronicamente, sons percussivos sobre superfícies diversas, retroalimentação sonora, registros de campo e outras formas de emissão sonora geralmente não identificadas como música (são frequências, não notas etc.). Porque, ao contrário de Life (…It Eats You Up), que era basicamente construído em torno de drones de guitarra processados, FE3O4 é absolutamente heterogêneo em termos de procedência dos sons exibidos, e sua forma de apresentação só parece reforçar essa sensação de união dos heterogêneos. Da primeira à última faixa do álbum, cada som reina supremo por um determinado momento de tempo, deformando-se ou mantendo-se em suas características, até sumir e aparecer um outro som que terá o mesmo tipo de tratamento. Raras são as construções em camada, ou mesmo pontuações simultâneas aos sons longos. Em momentos, soa até como um grande inventário de sons variados de predileção de Mika Vainio, fazendo cageanamente os sons encantarem por sua própria materialidade, e não por qualquer tipo de “orquestração”. Uma força, por assim dizer, mineral do som.

FE3O4 é tranquilamente o disco mais difícil de Mika Vainio. Não porque haja nele certas frequências particularmente difíceis de ouvir – há uma ou outra, mas representam muito pouco diante da duração das partes moderadas ou dóceis -, mas porque o nexo da organização sonora não se dá pelos moldes tradicionais da eufonia ou da lapidação da forma – ao contrário, ele parece deliberadamente abdicar, radical, de estrutura e de composição. Apenas dois princípios parecem nortear o prolongamento das faixas, na base da dinâmica e do contraste, ainda que sutil: a variação entre o alto e o baixo, no volume (a notar-se a fundamental contribuição do silêncio entre cada som e a calma que paira sobre a audição quase inteira), e os efeitos de contraste provocados por sons vindos de fontes distintas. Tudo isso credencia chamarmos FE3O4 de um disco estranhíssimo, objeto que se destaca no panorama, OVNI, monstro fascinante.

Mas o que credencia chamarmos FE3O4 de um belo disco é a forma como, harmoniosamente, todos esses sons heterogêneos encontram seu equilíbrio numa serenidade estranha, não sem picos e vales, mas articulando-se através da duração e chegando a uma homogeneidade de conjunto mesmo diante da pura alteridade sonora apresentada por cada unidade individualmente. Mika Vainio fez um álbum que se furta completamente à lógica do gênero, solapando as regras de audição e atmosfera de drone, noise, ambient ou eletroacústica, e oferecendo-se como um enigma brutalista (ou, ao menos, materialista). Nosso herói finlandês empreende a cada disco uma jornada em busca de maior precisão timbrística, limpidez de conceito e abstração composicional. Que não seja uma lógica linear, crescente de lançamento a lançamento, só torna tudo mais imprevisível e delicioso. Depois de um disco “metal”, Vainio faz seu disco “em branco”, seu tributo ao silêncio e ao nascimento e à morte da manifestação sonora. Salivamos para saber qual será o próximo passo. (Ruy Gardnier)

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Publicado às 25 de setembro de 2012 por em álbum da semana e marcado , , , , .
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