Camarilha dos Quatro

Revista de crítica musical.

Duplexx – Duplexx (2012; Bolacha, Brasil)

 

Duplexx é uma dupla brasileira (RJ) formada por Leo Monteiro e Bartolo. Os dois são mais conhecidos como membros da Orquestra Imperial (tocando respectivamente bateria eletrônica e guitarra), além de outros projetos — Monteiro foi baterista do Acabou la Tequila e tocou com Arto Lindsay, Fernanda Abreu e Moreno Veloso, Bartolo fez parte das bandas de Arnaldo Antunes e de Rubinho Jacobina, além de ter produzido o disco Mitologia do Kaos de Jorge Mautner. O projeto Duplexx nasceu no começo da década ’00 e esteve presente com instalações e performances audiovisuais nos eventos Nomads+Residents (Nova York, 2001), Sesc Experimental (RJ, 2003), VideoBrasil (SP, 2003), Being in Motion (Londres, 2006) e Multiplicidade (RJ, 2006). O primeiro álbum da dupla, em parceria com o artista Paulo Vivacqua, é TriKids (2006). No mesmo ano o Duplexx lançou seu segundo disco, Plano B, a partir de uma apresentação na casa carioca de mesmo nome. O terceiro álbum chama-se simplesmente Duplexx e foi lançado em 2012 através de crowdfunding via Bolacha Discos. (RG)

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Outrora usamos o termo “carnaval granulado” para descrever a pletora de sons microscópicos e heterogêneos em ebulição nas peças recentes de Keith Fullerton Whitman como “Occlusions”, “Disingenuity” e “Disingenuousness”. O mesmo termo pode ser usado, com ressalvas, para assinalar o que Duplexx tem de mais distintivo e exuberante. Tanto em um quanto em outro, os grãos, que compõem a parte mais perceptível das composições, estão em festa, muitos e diversos, incapazes de serem apreendidos um a um pela percepção do ouvinte. Mas se os últimos trabalhos de KFW tomam desse carnaval um aspecto mais caótico e imprevisível, o Duplexx opta por um desfile mais regrado e controlado, sem no entanto perder a força de cada sinalzinho isolado. Alguns princípios ligeiros organizam as composições em Duplexx: dois sons que se alternam em “Niobio” à maneira de um alarme de garagem, uma quase-melodia-refrão em “Eletrodo”, o lento crescer de intensidade em “Morfo”. São pequenos dados de estrutura que sustentam as composições mas concedem livre espaço para as intervenções e interferências pontuais de cada microcélula sonora que venha a surgir no horizonte, de sintetizadores, blips de computador, glitches e fricções percussivas de instrumentos tradicionais ou não. A grande questão em Duplexx se estabelece entre a minúcia e a suntuosidade, entre cada sonzinho infinitesimal que surge na audição e a sensação de grandeza diante de tantos deles simultaneamente criando uma vastidão sonora, um enxame ou uma sinfonia pós-industrial e “pós-musical”, se assim se quiser.

Nos créditos do CD menciona-se o “vasto arsenal de instrumentos e não-instrumentos” tocados por Monteiro e Bartolo para a realização do disco. A frase, absolutamente legítima, pode sugerir um maximalismo vale-tudo como se vê muito por aí. Ouvindo, no entanto, é evidente que todo esse arsenal passa por um fino crivo de sensibilidade e noção de coesão sonora. Apesar da enorme diversidade timbrística proveniente dos diversos instrumentos, há um pulso de escultor dentro da heterogeneidade que dá formas harmoniosas — mas uma harmonia toda própria, intransferível — à opulenta profusão de sons. E nada soa excessivo.

Outra reflexão acerca da frase dos créditos diz respeito à questão de gênero e à variação de climas entre as faixas do disco. Duplexx é eminentemente um disco de eletrônica experimental, mas sem reivindicar nenhum tipo de adesão a subgêneros ou artistas específicos (a comparação com Whitman é a título de similaridade, não influência direta). Glitches e ruídos pontuais estão presentes ao longo do disco, o flerte com o noise aparece em “Morfo”, mas tudo ocorre sem que a sensibilidade do ouvinte consiga desenhar mentalmente um panorama que não seja “Duplexx music”: arsenal de instrumentos, inúmeros procedimentos, personalidade única. Isso existe mesmo em faixas de características contrastantes, como “Fios” e “Niobio”. “Fios” é construída a partir de oscilação de feedback e de pequenos sons que se integram ao drone mutante de fundo, sobressaindo sons percussivos de fricção em superfícies ressonantes; evoca, portanto, uma natureza física, um trabalho braçal em ação. ‘Niobio” (mas também “Eletrodo”, por exemplo) já supõe um trabalho mais mental, frio, pela natureza não-orgânica dos timbres e pelo imaginário sci-fi de diversos dos sons emitidos. Em ambos, no entanto, o apuro com cada elemento, com o lugar de cada célula sonora (ou seriam moléculas, os grãos dos grãos?), a preocupação com o detalhe e com a musicalidade dentro do que é tido como não-musicalidade são flagrantes e obedecem a um mesmo tipo de sensibilidade, de construção lenta e gradual, estrutura simples e formidável riqueza de preenchimentos. Em Duplexx, tudo se dá nos meandros, e essa é a verdadeira chave do enigma. (Ruy Gardnier)

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Publicado às 13 de novembro de 2012 por em álbum da semana e marcado , , , , , .
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