Camarilha dos Quatro

Revista de crítica musical.

Animal Collective – Centipede Hz (2012; Domino, EUA)

Formado por colegas de escola em Baltimore que colaboravam em gravações caseiras, o Animal Collective ganhou formas mais precisas em Nova York por volta de 2000, tendo como membros Avey Tare (David Porter), Panda Bear (Noah Lennox), Geologist (Brian Weitz) e Deakin (Josh Dibb).  O som do grupo apresenta misturas de folk, pop dos anos 60, rock, música africana, eletrônica, ambiente, noise, entre outros. O Animal Collective foi inicialmente qualificado de freak-folk, graças ao surgimento no mesmo período de artistas ressuscitando o folk e experimentando sobre ele, mas o rótulo logo mostrou-se redutor. A partir do lançamento de Sung Tongs (2004), a banda passou a dar mais contornos pop a suas composições, sem com isso perder o vigor e a inventividade que marcaram sua primeiras manifestações. Com Strawberry Jam (2007) deram maior espaço a instrumentos eletrônicos, o que veio culminar no lançamento de seu oitavo álbum, Merriweather Post Pavilion (2008), em que o grupo assina como um trio, sem Deakin. Depois de grande sucesso atingido pelo álbum, o Animal Collective lançou ODDSAC (2010), um experimento audiovisual em parceria com o diretor Danny Perez, para só dois anos depois lançar seu tão esperado próximo disco, este Centipede Hz (2012), que marca a volta de Deakin à gravação com o grupo. (MM, AT)

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Muito se especulou sobre este disco do Animal Collective. Com certeza o fato de seu antecessor, Merriweather Post Pavilion, representar uma espécie de ápice para o grupo (unanimidade de crítica e público, as referências brutas mais do que nunca destiladas em uma sonoridade ágil, mas ainda complexa) ajudou na construção desse objeto mítico que seria “o próximo disco do Animal Collective”. Obviamente que o mais importante aqui não é analisar todas as expectativas projetadas nessa espécie de evento que se transformou o álbum (esse jogo de sete erros entre o que se espera e o que se encontra talvez seja um dos mais nocivos na análise  de qualquer objeto cultural ou obra de arte) mas, simplesmente, tentar intuir, de alguma forma, esse trabalho que está à nossa frente, sem exatamente buscar em referências midiáticas ou mesmo pessoais aquilo que nós gostaríamos que o álbum fosse.

Claro que é impossível ouvir um disco do Animal Collective sem pensar no caminho que o grupo trilhou até aqui. Centipede Hz, pelo menos nesse sentido mais generalista, é nada mais do que uma continuação natural do que já vinha sendo trilhado desde Strawberry Jam e do fatídico Merriweather Post Pavilion. Essa espécie de paradoxo pop que o Animal Collective gosta tanto de explorar: estruturas melódicas imprevisíveis, ágeis e sempre arrebatadoras, com uma habilidade de contágio praticamente instantânea, porém sempre mantendo uma arquitetura extremamente complexa em suas camadas, com timbres, linhas de synth, guitarras e qualquer objeto sônico não identificável que seja. Um painel sonoro sempre detalhista que constrói essa paisagem psicodélica expressionista (a identidade visual do grupo, aliás, sempre certeira e até ironicamente aleatória nesse sentido), rica e muito bem orquestrada em seus movimentos rápidos e marcantes, tendo como principal aliado um constante manejo eletrônico, música pop lisérgica baseada em pequenas detritos transcendentais da vida contemporânea (quem não se lembra da letra de “Street Flash“, uma das mais definidoras na construção desse imaginário poético?). Ou seja (se é que ainda sobraram adjetivos): um labirinto musical sedutor em suas possibilidades harmônicas, como também igualmente desolador em seu lirismo romântico e urbano.

Mas qual seria a temática particular de Centipede Hz, caso exista alguma? Falou-se muito sobre uma certa “estética da interferência” que supostamente permeia o álbum, pequenos detritos sônicos e outros entulhos meticulosos, uma sobrecarga sublime de informações que assombra nossos tempos. Ora, isso nada mais soa como praticamente quase tudo o que vem sendo feito nos últimos anos em certas searas da música eletrônica, uma ampliação perceptiva que gera belos momentos na música experimental (do glitch ao noise) e que muito se deve a nossa relação cada vez mais próxima com esses objetos tecnológicos e sinais dos mais variados que fazem parte do nosso cotidiano. Só porque boa parte das faixas do disco começam com sonzinhos isolados que soam dessintonizados (além de outras referências mais óbvias no meio do caminho), seria fácil demais finalizar o trabalho nessa simples análise, e até criticá-lo por isso, como alguns vem fazendo, chamando-o de saturado ou mesmo obsoleto.

Existe, sim, em Centipede Hz, essa confusão de cores e sinais, transmissões e camadas (como, aliás, existe em boa parte dos discos do Animal Collective), mas ao contrário de trabalhos mais cerebrais que tendem a conceitualizar esse ruído, ou trabalhos mais festivos (como o /\/\ /\ Y /\ da M.I.A.) que tendem a banalizar a excentricidade do timbre, o Animal Collective continua sua busca utópica pelo ritmo e pela melodia. Faixas como “Monkey Riches” e “Today’s Supernatural” são explosões melódicas desde seus primeiros segundos, a primeira com sua base grudenta e relativamente econômica, não menos expressiva por isso, e a segunda com sua qualidade de lambada psicodélica ou coisa que o valha. Sem falar no poder vocal de Avey Tare, que acompanha com excelência toda a modulação melódica das canções. Já a pandaberiana “Rosie Oh” tem um caráter mais intimista, com uma base de synths excêntricos levemente abafados e sempre caricatos. “New Town Burnout”, outro grande momento do disco, é um delicioso enigma, com sua percussão marcante no começo, o vocal épico, os synths alienígenas, e toda uma construção fantasmagórica bastante sólida em sua qualidade desoladora.

Centipede Hz, no fim das contas, é “apenas” mais um disco do Animal Collective. O que, por si só, já é grande coisa. Um trabalho que, simplesmente, continua uma trajetória musical das mais importantes dos nossos tempos. Se o disco não faz isso com o impacto que muitos esperavam, ele é extremamente competente em nos presentear com aquilo que o Animal Collective faz de melhor: canções explosivas e sem exatamente muitos limites conceituais, dentro de um belo e sempre conciso projeto musical que continuamos a acompanhar com grande prazer. (Arthur Tuoto)

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3 comentários em “Animal Collective – Centipede Hz (2012; Domino, EUA)

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Publicado às 29 de novembro de 2012 por em álbum da semana e marcado , , , .
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