Camarilha dos Quatro

Revista de crítica musical.

Four Tet ‎– Pink (2012; Text, Reino Unido)

Four Tet - Pink

Four Tet é o projeto mais conhecido de Kieran Hebden (1977, Londres), multiinstrumentista e membro do grupo de pós-rock Fridge. Iniciou sua carreira solo sob o pseudônimo de Four Tet em 1998, lançando no ano seguinte seu primeiro álbum, Dialogue. Seguiram-se Pause (2001) e Rounds (2003), discos que consagraram o artista como um dos mais inventivos do cenário eletrônico europeu. Depois vieram Everything Ecstatic (2005), o EP Ringer (2008) e o álbum There Is Love in You (2010). Além de sua produção regular como Four Tet, Hebden produziu diversos remixes para outros artistas (entre eles Aphex Twin, Radiohead, Madvillain, Battles, The Notwist, entre outros) e desenvolveu parceria com o baterista Steve Reid, com quem lançou quatro álbuns de música improvisada. Pink (2012) é seu sexto álbum sob a alcunha Four Tet. (RG, AT)

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As composições de Pink, de um modo geral, funcionam como uma espécie de eclipse sonoro: de um lado temos uma raiz quase industrial, formada por samples ríspidos e repetitivos, batidões old school houseiros que formam uma base sonora áspera; e do outro, uma melodia excêntrica, quase sempre doce e até sentimental, formada por pianos, cordas e outros elementos luminosos, os quais, uma hora ou outra, irrompem sobre essa estrutura mecânica. Em faixas como “Locked”, “Lion” e “128 Harps”, podemos perceber claramente uma estrutura minimalista e até grosseira em seus primeiros momentos, para que depois, uma vez que essa base se estabelece, surjam os elementos melódicos, trazendo um certo caráter meditativo para aquilo que soava rude. Mesmo faixas que não seguem exatamente esse esqueleto funcionam ainda assim dentro de uma variação bastante singular entre o mecânico e melódico. Em “Jupiters”, por exemplo, temos a melodia clara e solitário de um sintetizador no início da faixa, uma quebra e, logo depois, a reconstrução da faixa a partir de uma base minimalista para, outra vez, a mesma melodia do começo surgir ainda mais poderosa, e com um poder quase reflexivo, transcendental.

Todo esse jogo sonoro operado por Kieran Hebden pode até parecer simples na teoria, como também soa até banal destrinchar os procedimentos de sample e loop de um The Field da vida, mas na prática o resultado é uma espécie de artesanato sonoro muito bem talhado, extremamente consciente de sua economia e, principalmente, magistral em sua escolha isolada de timbres. A magia de Pink reside justamente nessa economia de matéria-prima, relativamente poucos elementos, mas todos de uma sonoridade extremamente particular, fazendo do mínimo – e em alguns momentos até mesmo do usual – pequenas epopeias eletrônicas. Os glitches de “Ocaras”, repetitivos e hipnóticos, nada mais são do que um material bruto bastante singelo (e até clichê, em algum sentido, o errinho técnico picotado que gera o ritmo minimalista), porém magistralmente orquestrados nesse plano melódico tão característico de Hebden. Uma concepção do que poderíamos chamar tranquilamente de pura dance music contemporânea. Pois se o homem flerta com o jazz, o hip-hop, o house e o techno, podemos perceber, até pela sonoridade de seu disco antecessor, There Is Love in You (2010), essa qualidade eletrônica mais generalista, nunca aleatória, remetendo aos alicerces do puro dance oitentista e noventista, obviamente muito bem atualizados por Hebden. Os vocais jukados de “128 Harps” e “Pyramid”, por exemplo, já se mostram como fatores dessa sublime renovação, pelo menos pra ficar em um exemplo mais específico.

Em tempos de gêneros e subgêneros, que surgem e desaparecem com cada vez mais rapidez, é incrível a capacidade de Hebden em manter seu som sempre característico, nunca se limitando a uma vertente ou a uma sonoridade específica, possibilitando, inclusive, grandes colaborações com artistas dos mais diversos, de Steve Reid a Burial, entre vários outros. Ainda que, claro, seja bastante perceptível um certo “estilo Four Tet” já familiar em suas faixas; o ponto é que, mesmo dentro desse “estilo Four Tet”, Hebden consegue se superar a cada lançamento, e ele não faz isso flertando exatamente com outros caminhos (apropriando-se criativamente das beiradas de certos gêneros estabelecidos, talvez), mas é invocando esse artesanato cada vez mais pessoal, esse manejo quase bruto e ao mesmo tempo delicado, paradoxal e genial em sua mecânica melódica, que o Four Tet ainda nos seduz. (Arthur Tuoto)

Ouça “Locked” e “Jupiters

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2 comentários em “Four Tet ‎– Pink (2012; Text, Reino Unido)

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Publicado às 2 de dezembro de 2012 por em álbum da semana e marcado , , , .
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