Camarilha dos Quatro

Revista de crítica musical.

Rangda – Formerly Extinct (2012; Drag City, EUA)

Rangda - Formerly Extinct

Rangda é um grupo formado em 2009 pelos guitarristas Sir Richard Bishop e Ben Chasny, e pelo baterista Chris Corsano. Sir Richard Bishop foi membro do Sun City Girls e tem prolífica carreira solo, Ben Chasny é o homem por trás do projeto Six Organs of Admittance, além de participar de bandas como Comets on Fire e Badgerlore, e Chris Corsano é um baterista onipresente no mundo da improvisação, já tendo tocado com Evan Parker, Joe McPhee, John Edwards, Thurston Moore, Paul Fhaherty, Jim O’Rourke e Mike Shiflet, entre outros. O primeiro álbum do grupo é False Flag (Drag City), lançado em 2009. Formery Extinct é o segundo álbum do Rangda — o nome faz referência à rainha diaba da mitologia balinesa, uma devoradora de crianças —, e foi lançado em setembro de 2012. (RG)

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A se julgar pelas diferenças entre False Flag e este Formerly Extinct, o membro que passou mais tempo pensando no segundo álbum do Rangda foi o honorável Rick Bishop. A maior parte das faixas carrega a inescapável marca do panfolclorismo, ou do folk ecumenismo que Bishop persegue em sua carreira solo e que perseguiu com seu irmão Alan Bishop no Sun City Girls. É mais que isso, até: se abstrairmos o primarismo punk do-it-yourself na produção e a aura de humor eternamente presente, Formerly Extinct passa tranquilamente como um rebento legítimo do clã Sun City Girls. O comentário, todavia, não é para deplorar a pouca combatividade que lhe dão Ben Chasny e Chris Corsano, que aqui se articulam garbosamente pelas construções melódicas bishopianas e com seus sabidos talento e apuro técnico complementam e dão vida de trio às ideias do autodenominado Sir. É que simplesmente parece que Bishop estava saudoso de seu trabalho com banda e avidamente aproveitou a oportunidade para trazer algumas de suas ideias candentes ao formato de power trio. O segundo álbum do Rangda é sensivelmente menos improvisado e anárquico que o primeiro, mas a incandescência e a visceralidade perdidas são trocadas aqui pelo foco milimétrico e pela luminosidade das melodias, suficientes para fazer cada faixa se destacar e termos de atmosfera e poder encantatório.

Seja com três minutos e pouco, seja com doze, cada faixa de Formerly Extinct é minuciosamente trabalhada, das lentas construções de expectativa exemplificadas pela primeira metade de “Silver Nile” — faixa que aproxima relativamente o Rangda às atmosferas do Earth mais atual —, aos ataques mais diretos de “Idol’s Eye” e “Majnun”, ambas transbordando de sensualidade árabe (cortesia da guitarra de Bishop), de artesanato melódico magistral e dos desorientadores tempos quebrados de Chris Corsano. Esse power trio faz o folk virar rock (como já a seu tempo fazia o Sun City Girls), mas o rock por sua vez desabrocha em burilação de rock progressivo — nos andamentos, em certas digressões entrópicas (uma em “The Vault”, outra em “Plugged Nickel”) — mas também, paradoxalmente, em imediaticidade de sentimento, de cabo a rabo presente no disco. A contundência de cada nota de guitarra e a fluência do som, o perfeito entrosamento, garantem a vibração em níveis constantes e altos.

O fã específico de Chris Corsano pode estranhar a relativa domesticação de seu herói, aqui envolvido em ritmos repetidos, apesar de incomuns. De fato, Corsano aqui exerce menos suas capacidades tentaculares do que seu talento de bom dosador. Ben Chasny, por sua vez, tem a cara da música mais longa do álbum, “Silver Nile”, mas brilha também no distorcido solo de “Night Porter”, uma autêntica proposição final antes que o disco se termine. Mas é a sensibilidade de Bishop que povoa o disco, das composições arabicizantes já citadas ao riff inicial de “Tres Hambres”, passando pelos contornos pontuais de “Silver Nile” e pela dulcíssima “Goodbye Mr. Gentry”, o próximo de balada country a que o Rangda pode aceder (ao menos até agora). Em todo caso, independente do artista que sai ganhando em termos de imaginário, o trio de Bishop, Chasny e Corsano mostra-se perfeitamente azeitado e sintonizado na mesma frequência de onda, limitando o espaço de improvisação mas criando faixas poderosas que podem ter, sim, espaço para invenções ad hoc em arroubos espontâneos. Um discaço, imprescindível para fãs de Bishop e dos Sun City Girls, mas também fundamental para qualquer um que goste de rock instrumental ou simplesmente criação de melodias em instrumentos de cordas, de Jacob do Bandolim a Omar Khorsid. (Ruy Gardnier)

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Publicado às 12 de dezembro de 2012 por em álbum da semana e marcado , , , .
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