Camarilha dos Quatro

Revista de crítica musical.

Eliane Radigue – Feedback Works (2012; Alga Marghen, Itália [França])

Eliane Radigue - Feedback Works

Eliane Radigue é uma compositora francesa (Paris, 1932) de música eletrônica. Foi casada com o artista visual francês Arman, com quem teve três filhos nos anos 50. Estudou piano e começou a compor nos anos 50, mas depois de ouvir um programa de rádio com composições de Pierre Schaeffer, interessou-se em música eletrônica. Foi assistente e aluna de Schaeffer, e nos anos 60 trabalhou como assistente de Pierre Henry. Seus primeiros trabalhos eletrônicos surgiram no começo dos anos 70 e foram apresentados como instalações sonoras e concertos na França e nos EUA. Até os anos 90, quase toda sua obra foi composta no sintetizador ARP 2500, e a maioria de suas peças tem longa duração, com variações muito discretas e ênfase na repetição. Algumas de suas obras mais célebres são Adnos, em três partes (1974, 1980 e 1981, respectivamente), e Trilogie de la mort (1988-1993). Feedback Works apresenta alguns dos primeiros trabalhos de Radigue, entre 1969 e 1970, trabalhando basicamente com feedback de fita magnética e posterior processamento. (RG)

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É muito curioso pensar que na mesma época que Jimi Hendrix estava incorporando o feedback ao repertório de sons selvagens e incandescentes extraídos de sua guitarra, do outro lado do Atlântico havia uma excêntrica compositora experimental elaborando feedbacks com fita magnética, amplificadores e um microfone, e a partir daí reprocessando esses feedbacks e convertendo-os em sinuosas viagens que posteriormente seriam associadas, pela extensão da duração, pela insistência em poucos tons e pelo caráter meditativo, ao minimalismo radical de Morton Feldman. Curioso que, tanto no terreno da música pop quanto do da música erudita, o uso do feedback causou imediato estranhamento, seja através das acusações de não-música no caso de Hendrix quanto da hostilidade dos outrora mestres de Radigue, Pierre Schaeffer e Pierre Henry, ao que sua pupila começara a fazer (ao menos não eram acusações de não-música, uma vez que eles mesmos estavam passíveis de sofrer esse tipo de acusação). Ainda assim, nada pode ser mais diferente do que os usos de feedback entre Hendrix e Radigue, um virulento e agressivo, único a cada omento, outro denso e imersivo, porém pontuado pela calma e pela repetição. Nos dois polos, contudo, era música do futuro que se fazia. E, a se julgar por continuadores de ambos como Sonic Youth e Eleh, a música soube alimentar-se muito bem desses grandes pioneiros e fazer do feedback hoje, sem qualquer exagero, uma verdadeira instituição.

É verdade que, no que diz respeito a Eliane Radigue, o caminho para o reconhecimento foi muito mais árduo. E mais demorada ainda a veiculação de seus trabalhos de feedback, pois, excetuando uma edição de dez cópias de Vice Versa em 1970, lançada como múltiplo, nenhum de seus trabalhos com a retroalimentação sonora viu a luz do dia até a Important Records lançar em 2009 Vice Versa, Etc… Feedback Works aparece para completar (ou pelo menos jogar luz muito significativa sobre) o percurso de Radigue antes de ela conhecer e se apaixonar pelo sintetizador ARP 2500 com o qual ela faria a grande maioria de sua obra subsequente. Mas basta ouvir “Stress-Osaka”, encomendada para servir de ambiência sonora para a Feira Internacional de Osaka em 1970, que já se nota uma compositora plenamente consciente da música que pretende fazer, com uma parede sonora de graves modulados em volume e timbre enquanto pulsos agudos metronômicos fornecem um sutil elemento dinâmico para melhor observar as microvariações dos graves massivos (“Stress-Osaka” deveria apenas ser uma parte da peça “Labyrinthe Sonore”, que posteriormente foi refeita já com o ARP). “Usral”, que antecede em dois meses “Stress-Osaka”, usa agudos etéreos como parede sonora enquanto surgem oscilações de médios e graves que se reequilibram em volume, textura e duração de sustain/decay ao longo da duração da peça. Se os registros mais graves que ocupam a maior parte de Feedback Works convidam a uma audição noturna, “Usral” tende a ser mais assimilável como diurna, ainda que certos sobretons evoquem sensações fantasmagóricas.

Em entrevista recente a Max Dax, Radigue conta de seu desinteresse pela forma de Schaeffer e Henry trabalharem com composição em doze tons por ser intelectualmente estimulante mas em última instância uma questão lúdica, ao passo que seu interesse residia em fazer a música fluir, fazer com que a música convide o ouvinte a estar dentro dela. Esse desejo de imersão completa no caldo sonoro, consistente com suas aspirações de audição profunda, pode ser completamente vivenciado quando se ouve as majestosas “Omnht” e “Vice Versa, Etc.”, a primeira com suas colossais ondulações de graves que passeiam formidavelmente pelo espaço sonoro preenchendo o ambiente, e a segunda que trabalha com um registro mais amplo de frequências ao longo da duração, insistentes e fascinantes, e também variáveis já que as instruções da peça possibilitam execuções distintas porque é facultado tocá-la em diferentes velocidades e/ou reequilibrando os volumes das caixas direita e esquerda (daí os dois mixes de “Vice Versa, Etc.” em Feedback Works, com diferenças agudas nas alturas de notas). Se esses sons guardam ainda hoje um indelével caráter extraterreno (não por parecerem “sons do espaço”, como aliás grande parte da música eletrônica ou de colagem de fita produzida nesse período, mas pela excentricidade da proposta musical), o que dizer de um período em que praticamente ninguém trabalhava com drones? Mas o pioneirismo é apenas uma pequena parcela da fascinação. O grande prazer é mesmo ouvir, deixar o som tomar o ambiente, desfrutar de cada frequência insistente e de suas discretas modificações, de sua particular reconstrução do tempo, tal como ragas da era tecnológica que essas peças inegavelmente são. Gratidão eterna ao selo italiano Alga Marghen por finalmente tornar disponível essa música tão preciosa que transporta o ouvinte para dentro dela e, por extensão, para dentro de si e do ambiente que se habita. (Ruy Gardnier)

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Publicado às 13 de dezembro de 2012 por em álbum da semana e marcado , , , .
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