Camarilha dos Quatro

Revista de crítica musical.

Kevin Drumm – Relief (2012; eMego, Áustria [EUA])

Kevin Drumm - Relief

Kevin Drumm é um compositor de música experimental e noise nascido em South Holland, Illinois (EUA), em 1970. Mudou-se para Chicago em 1991 e com suas experimentações com guitarra preparada atuou na cena de música improvisada da cidade, ao lado de, entre outros, Jim O’Rourke e Ken Vandermark. Seu primeiro álbum, epônimo, é de 1997. Alcançou maior notoriedade com seu quarto álbum, Sheer Hellish Miasmah (2002), considerado um dos maiores discos de noise da década passada. Em 2008, lançou Imperial Distortion, com drones de feedback de guitarra mais próximos do ambient do que do noise. Além dos lançamentos oficiais por selos mais bem estruturados, Drumm tem uma série de CD-R’s, cassetes e outros formatos. Gravou discos colaborativos com diversos artistas, em especial duos com Axel Dörner, Taku Sugimoto, Daniel Menche, Aaron Dillaway e John Wiese, além de ter dividido o palco com improvisadores como John Butcher, Mats Gustafsson, Tony Conrad, Phil Niblock, Fennesz, entre outros. Relief é seu primeiro álbum solo pelas Editions Mego desde Sheer Hellish Miasmah (ele tem também um disco em parceria com Daniel Menche, Gauntlet, de 2007, pela eMego), e tido como uma volta ao noise mais avassalador pelo qual é conhecido. (RG)

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Em música pop, o fade out final provoca a conhecida sensação de que aquela melodia continua para sempre, apenas nós é que paramos ali de ouvi-la. Há fades mais protocolares que outros, e alguns são alçáveis ao panteão de grande arte, como aquele que ocorre ao final de “The Happening” dos Pixies. Essa consideração suscita a pergunta: e no noise, o que seria o equivalente a esse sentimento de eternidade? Nem o fade out final nem a supressão abrupta do canal provocam um outro tipo de sensação, geralmente o de alívio ou de fim de processo, dada a natureza extrema da audição e a consciência de um trabalho árduo/intenso/extático em operação, em que o simples decréscimo do volume até o final jamais metaforizará uma continuidade, e sim a capitulação (mesmo que seja a capitulação de todas as coisas ao tempo, e por extensão à morte, à degenerescência etc.). Kevin Drumm dá a resposta definitiva em Relief (“alívio”, mas também “relevo”), um álbum com 36 minutos de opressão sônica no volume e nas escolhas de frequência: esse extracampo da música se dá no começo, não no fim, e “Relief” já começa no talo absoluto, como se esse som já estivesse existindo um bom tempo antes de nós começarmos a ouvi-lo. Ao ouvinte incauto — e todo ouvinte é em alguma medida incauto ouvindo Kevin Drumm — esse começo será um dos maiores sustos já vivenciados no trato com música. Mesmo num disco de noise, o admirador não espera tamanho volume sônico assim, de partida, já estabelecido, atacando à toda. E não é que “Relief” logo depois nos dê tempo para recuperar…

“Relief” é um absoluto prodígio de construção sonora, e um disco que parece unir o vandalismo sonoro de Sheer Hellish Miasmah a uma nova mestria na escolha de frequências e no modo como encadeá-las, em termos de arranjo — frequências simultâneas — e em termos de progressão — como a música evolui. Uma mestria que Drumm sempre mostrou em seu trabalho improvisado, mas que aparentemente refinou-se ainda mais depois de seus exuberantes discos de drones em volume baixo, Imperial Distortion e Imperial Horizon. O fato é que em Relief temos uma orquestração de frequências noise simultâneas nas três principais escalas de registro, grave, médio e agudo, sempre cambiantes, sempre atacando, sempre massivas e sempre no volume máximo. Uma tal proposta faz lembrar naturalmente Merzbow. Mas aí está a pedra de toque: ao passo que no estilo de Merzbow há um componente forte de intervenção espontânea e um limite para o polimento, em Drumm há o ímpeto de um orquestrador que equilibra e faz variar os espectros sonoros com a finesse de um clássico. Acontece que o material não é nada dosado nem clássico, e essa orquestração, ao invés de domesticar as potencialidades do noise, torna-o ainda mais massivo (ainda que, de fato, menos brutal — mas quem disse que precisa sempre ser o máximo de brutal?).

A questão central de Relief, efetivamente, é relevo. Se descontarmos os cavernosos graves que são mantidos em volume ligeiramente mais baixo, o disco é dominado por duas linhas de frequência, um drone de médios relativamente estável que faz lembrar um pouco o noise introspectivo dos últimos trabalhos dos Yellow Swans, e esguichos mais fragmentados de frequências agudas em vários registros e timbres, que fornecem o elemento mais dinâmico da composição. É o interrelacionamento dessas camadas que fabrica as intensas sensações que se tem ao ouvir o disco: o astucioso preenchimento dos campos sonoros de cima a baixo e a forma ondulante como os sons passeiam durante os 36 minutos de audição. Uma massa sonora que simula palpabilidade, uma tridimensionalidade sonora que suscita relevo. No fim, nenhum fade, nenhuma parada brusca. Apenas certas frequências desaparecem, depois outra, depois mais uma, diminuição geral da robustez coletiva até que finalmente tudo cessa. Alívio? Na verdade, mais a sensação do término natural de um processo, da manutenção por diversos minutos de um ápice de intensidade ao qual o ouvinte tem que se dedicar sem desculpas e sem tréguas. Alívio nenhum: mais a certeza do tempo preenchido com uma das sensações mais inigualáveis dentre as que a música pode oferecer hoje. Nada menos que isso. (Ruy Gardnier)

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Publicado às 13 de dezembro de 2012 por em álbum da semana e marcado , , , , .
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