Camarilha dos Quatro

Revista de crítica musical.

Melhores de 2012: Músicas – Arthur Tuoto

Cameron Stallones

O pódio, 3 obras-primas indispensáveis:

Burial – “Ashtray Wasp” (ouvir)
Burial parte de uma base bruta, seca, invariavelmente old school mas devidamente atualizada por uma estética que ele mesmo fundou, para construir a faixa do ano. Uma epopeia arqueológica eletrônica? Um épico houseiro pós-moderno? Em seus mais de 11 minutos, “Ashtray Wasp” é uma viagem ao passado e ao futuro da dance music, com suas devidas deformações e construções fantasmagóricas. A habilidade regenerativa da faixa é o que mais impressiona, quase uma narrativa sonora de regras próprias e movimentos sempre particulares.

Jeri-Jeri with Mbene Diatta Seck – “Mbeuguel Dafa Nekh” (ouvir)
Outra epopeia rítmica que em 2012 deve versar apenas com Burial, gêneros distintos – ou nem tanto assim? – mas que, querendo ou não, se completam nessa complexidade de andamentos, quebras e variações sedutoras. Mark Ernestus invoca o grupo Jeri-Jeri para criar uma impecável base percussiva, servindo de forro para a incrível, devidamente distante e ainda intensa voz de Mbene Diatta Seck. Impactante em sua ambientação instrumental e altamente emotiva em sua interpretação, “Mbeuguel Dafa Nekh” faz valer cada segundo dos seus nove minutos.

Sun Araw, M. Geddes Gengras, The Congos – “Happy Song” (ouvir)
Um encontro monumental que parte das bases do dub, do reggae, e do dancehall – devidamente mescladas com a psicodelia excêntrica que vem ao caso – para gerar uma sonoridade inventiva que vai além de uma simples colaboração. O que temos aqui é uma sintonia altamente intuitiva que casa duas gerações sem exatamente forçar uma relação sonora: a lei natural do encontro. Só neste embate entre a percussão crua e os ecos digitais-etéreos de “Happy Song”, já temos um dos mais belos momentos sonoros do ano. O que falar então da incrível dinâmica vocal da faixa? Transcendental, no mínimo.


O primeiro escalão:

Grizzly Bear – “Yet Again” (ouvir)
A balada indiscutível de 2012. Se o Grizzly Bear é a banda pop mais sofisticada da atualidade – precisamente moldada por uma certa lapidez folk – “Yet Again” é, definitivamente, um dos melhores exemplos dessa elegância que não guarda exatamente muitos segredos. Com uma construção relativamente simples (ganchos muito bem definidos, arranjos não muito complexos), o grupo faz dessa poesia mínima, desse bem articulado gesto primitivo, uma espécie de épico lírico. Ora, olhando para trás, vislumbrando a própria historicidade da música pop, não é assim que nascem os grandes? Pois aqui o temos.

Jam City – “The Courts” (ouvir)
Classical Curves constrói uma espécie de batidão robótico através de uma matemática complexa em seu conceito de corpo musical, como também altamente desnorteadora em sua economia agressiva. As faixas até funcionam em uma crescente, mas o que impressiona não é a catarse dançante, essa sim até tímida, mas sim os padrões quebrados aliados aos timbres sempre excepcionais. “The Courts” é um belo exemplo de uma faixa que parece mais preocupada em ser simplesmente inventiva nesse sentido, do que em buscar chancela em algum gênero mais definido.

Maria Minerva – “The Sound” (ouvir)
Nossa diva do avant-pop e o single kitsch-futurista do ano. Um sample devidamente excêntrico que ressoa ao fundo, uma sentença sentimental desoladora (“Your love plays my body and my thoughts in my mind/like a record that never ends”) e claro, o vocal processado e ressentido de uma Maria Minerva que, se por um lado soa distante, está na verdade mais presente do que nunca, com um lirismo mais claro e direto, brutalmente limpo e acima de tudo entregue a essa tristeza sedutora que perpassa por todo o álbum.

Killer Mike – “R.A.P. Music” (ouvir)
A faixa-título do disco de Killer Mike fecha não só o discurso poético do álbum como um todo, mas é a chave para toda uma obra altamente política em suas reflexões, como também indiscutivelmente rica em sua sonoridade. “This is jazz, this is funk, this is soul, this is gospel/This is sanctified sex”. Uma heterogeneidade de gêneros que revela o acrônimo definidor: Rebellious African People.

Animal Collective – “Monkey Riches” (ouvir)
As explosões melódicas do Animal Collective: cada vez mais dinâmicas ao mesmo tempo que sempre complexas, uma sedução quase instantânea que vai além do que um dia sonhou a nossa definição de psicodelia pop. Pequenos detalhes grudentos, loops muito bem plantados, detritos sônicos dos mais variados e, claro, o vocal definidor de Avey Tare, fazem de “Monkey Riches” outro épico transgênero, mas que, indiscutivelmente, soa simplesmente com uma faixa do Animal Collective, tamanha é a identidade sonora do grupo.

Tom Zé – “Tropicalea Jacta Est” (ouvir)
Algumas coisas apenas Tom Zé tem a autorização intelectual, e o simples porte criativo, para fazer. No caso, uma colagem inventiva que evoca obras míticas da música e da cultura brasileira, ao mesmo tempo em que gera uma faixa extremamente sedutora em sua dinâmica crescente e soa simplesmente atual, fresca. Ou seja, quem além dele para manter esse diálogo com o passado, ao mesmo tempo em que inova no presente e, querendo ou não, tem um olho no futuro?

Untold – “Caslon” (ouvir)
O techno grave de Untold (e aqui o termo grave serve tanto para a baixa frequência da bass music, como para o tom severo – a gravidade – do techno do produtor) encontrou um de seus maiores e melhores representantes na trilogia de EPs Change In A Dynamic Environment. Com duas novas faixas a cada lançamento, o Sr. Dunning parecia ir ainda mais longe em uma sonoridade seca e de andamentos cada vez mais hipnóticos em suas pulsões rítmicas. Difícil dizer se “Caslon” é mesmo a melhor delas, definitivamente uma das mais brutas e agressivas em seus primeiros segundos, para descambar em uma narrativa complexa e mais melódica, uma bela porta de entrada para um dos universos musicais mais definidores do ano.

Massacooramaan – “Dead Long Time”  (ouvir)
O enfant terrible de Chicago mostra a que veio. Dave Quam nos apresenta um juke quebrado, seco e que, vide seu twitter e outras manifestações públicas, é quase uma posição política dentro das estruturas da música eletrônica contemporânea. Com um dos EPs mais explosivos do ano, o Massacooramaan vai além das declarações polêmicas e prova seu ponto através de uma sonoridade original e agressiva, mesclando um footwork áspero com um reggaeton epiléptico, se é que palavras e gêneros podem definir sua proposta.


O segundo escalão:

Four Tet – “Jupiters” (ouvir)
Quem estava no Sónar São Paulo e ouviu aquelas primeiras notas isoladas, um sintetizador luminoso que parecia ter saído do paraíso, estava diante de “Jupiters”, abrindo o incrível live do Four Tet no festival. O artesanato melódico de Kieran Hebden, com o decorrer dos anos, parece que fica cada vez mais sofisticado, longe de qualquer desgaste estilístico ou outro sinal de envelhecimento. “Jupiters” é uma das provas de que a destreza do compositor para artimanhas rítmicas ternas e harmoniosas, minimalista em suas bases quase grosseiras, continua em alta.

Dirty Projectors – “Gun Has No Trigger” (ouvir)
O poder vocal do Dirty Projectors, e a maneira com que o grupo constrói seus planos melódicos a partir dessa linha de frente é, sem dúvida, um dos maiores diferenciais do grupo. No primeiros segundos de “Gun Has No Trigger” ouvimos os vocais femininos moldarem uma bela base, para a entrada do carro chefe, o vocal masculino, imposto e muito direcionado em suas variações líricas, fazendo da faixa outro belo momento pop do ano.

Chelpa Ferro – “Mesa de Samba” (ouvir)
As cordas pontuais de Pedro Sá e Arto Lindsay, certeiras e ao mesmo tempo esparsas no jogo de ambientação proposto, dão outra vida ao objeto de percussão montado pelo Chelpa Ferro. Através de frequências hipnóticas e contínuas, jorros epilépticos, microfonias e outros ruídos, “Mesa de Samba” é uma reinvenção sonora das mais felizes, possivelmente o ponto alto da proposta conceitual de Chelpa Ferro 3.

Metá Metá – “Oya” (ouvir)
A pancada jazzística tribal do Metá Metá. O sax e a percussão, em uma espécie de transe sempre crescente, encontram uma dinâmica sedutora na voz imponente de Juçara Marçal. Com seus devidos rompantes muito bem pontuados pelo jogo entre vocal e base instrumental, a faixa é um dos grandes momentos de MetaL MetaL.

Mark Van Hoen – “Garabndl x” (ouvir)
Os detritos cabalísticos de Mark Van Hoen em The Revenant Diary encontram uma dimensão mais abstrata, desoladora em sua melancolia ambiente, nos percursos de “Garabndl x”. O crepitante que versa com o divino, uma pequena artimanha industrial de tons luminosos e tristeza cativante.

Zebra Katz – “Ima Read” (feat. Njena Reddd Foxxx) (ouvir)
Além do trap, outra grande onda de 2012 foi o queer rap. Não que o gênero seja de fato novo, mas o hype sobre nomes como Le1f, Mykki Blanco, Zebra Katz, entre outros, ajudou na difusão desse gender rap, ou de uma sonoridade que, se por um lado definitivamente não fica presa a esse gueto temático, parte destas manifestações de gênero tão atuais e necessárias para, simplesmente, construir boa música. “Ima Read” tem o tom ameaçador de um filme de horror, com seu grave pontual e atmosférico, ao mesmo tempo que mantém sua aura sedutora e obscena com os vocais de Zebra Katz. Mistura mais do que tentadora e nebulosamente convidativa.

Mykki Blanco – “Wavvy” (ouvir)
A mixtape/álbum Cosmic Angel talvez tenha sido um passo precipitado nesse animador início de carreira de Mykki Blanco, ainda que o trabalho tenha belos momentos, fica faltando uma sensação de conjunto (ou, simplesmente, as faixas boas estão muito acima das faixas médias). “Wavvy” é definitivamente um desses grandes momentos, indiscutivelmente a faixa mais bem produzida de Blanco até agora, com seu tom aterrador mesclado com uma espécie de erotismo tétrico. Fica a certeza de que o rapper ainda irá nos surpreender muito mais.

Kanye West – “Mercy” (RL Grime & Salva Remix) (ouvir)
Se o trap é um gênero que já nasceu fadado à prática da apelação de pista (suas bases deliciosamente farofentas não negam), RL Grime sabe bem o caminho a seguir. Com alguns remix inspiradores, outros nem tanto, e um set no boiler room que literalmente fez o pessoal “quebrar até o chão”, o jovem é um dos produtores que mais cresce atualmente, chancelado, obviamente, pela bolha do trap (que, como toda bolha, já apresenta sinais de fraqueza). No remix de “Mercy”, uma das poucas faixas que se salvam do falido Cruel Summer, RL Grime e Salva não economizam na desconstrução trapeira da faixa, processando suas frequências, isolando seus vocais, picotando seu samples. E se você ouviu isso em alguma pista de 2012, sabe que o negócio não é brinquedo, quebradeira 100% garantida

Chief Keef – “I Don’t Like” (ouvir)
Todo ano tem seu jovem rapper prodígio. Aquele que com a devida espontaneidade juvenil sabe aliar uma agressividade necessária com um tom melódico pesado mas devidamente cativante, muitas vezes consciente de seu apelo popular. Responsável por um remix capitaneado por ninguém menos que Kanye West (incluso no álbum Cruel Summer), “I Don’t Like” alçou o jovem Chief Keef para um polêmico estrelato. Misto de gangsta rap domesticado com rap easy listening, o refrão repetitivo e grudento da faixa é definitivamente um de seus ápices, sem falar no videoclipe de bases narcóticas e inspiração homoerótica, no mínimo um inusitado single de estreia.

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