Camarilha dos Quatro

Revista de crítica musical.

Melhores de 2012: Músicas – Igor Cordeiro

Jam City

Cinco faixas essenciais:

Massacooramaan: “Dead Long Time” (ouvir)

Podemos definir Dave Quam como um Diplo às avessas. Enquanto o dono do Mad Decent procura na música dos guetos os padrões mais acessíveis, capazes de seduzir o mainstream instantaneamente, Quam fundou o projeto Massacooramaan sobre as bases mais esquisitas de sua intensa pesquisa musical. O sólido Dead Long Time EP adiciona Luanda à mistura de Chicago e Londres que tem sido regra do ano passado pra cá, num trabalho extremamente criativo e sem paralelos. Da guitarrinha pontual ao vidro quebrando, “Dead Long Time” foi construída num ritmo tão frenético e maluco que é fácil sua perfeição ser negligenciada. Não se engane.

Kowton: “Des Bisous” (ouvir)

Com a medonha ascenção do “brostep”, os produtores britânicos que não se renderam ao Techno acabaram por deflagrar um revival do Grime instrumental que culminou no finzinho de 2012 no lançamento da preciosa compilação de white labels do lendário Ruff Sqwad. Demorou para muitos perceberem, porém o jogo estava ganho antes de alcançarmos a metade do ano: Kowton pairou sobre os colegas (incluindo veteranos como Sir Spyro e novatos como o Logos) com uma produção que ecoa tanto o Grime quanto a House dos primórdios. Sem surpresa, “Des Bisous” aparece na linha de chegada com a força intacta – crua, enigmática e rejeitando qualquer tipo de rótulo.

Jam City: “The Courts” (ouvir)

A única maneira de, sem culpa, separar “The Courts” do todo que é Classical Curves (e principalmente de sua antecessora no álbum, a destruidora “Her”) é lembrar de seu lançamento como single no início do ano. A mudança de abordagem do Jam City, trocando o foco da melodia para a edição de samples e sequenciamento, foi surpreendente e bem vinda, coincidindo também com a reformulação em conjunto do Night Slugs. A mistura turbinada de Art of Noise e comercial da Nike em “The Courts” atesta que eles permanecem na linha de frente da dance music.

Burial: “Ashtray Wasp” (ouvir)

Faixa alguma foi tão emocionalmente épica quanto “Ashtray Wasp” esse ano. Ninguém melhor que o próprio Burial para corroborar com a opinião: até mesmo a segunda metade da música parece melancolicamente exasperada devido à imensa euforia dos seis primeiros minutos. Bobagens à parte, aqui se presencia o nascimento de uma nova fase na carreira do produtor, na qual ele brinca com formas e durações, expandindo sua sonoridade ao mesmo tempo em que mantém a assinatura.

Mark Ernestus Presents Jeri-Jeri with Mbene Diatta Seck: “Mbeuguel Dafa Nekh” (ouvir)

O incansável Mark Ernestus não apenas criou um selo dedicado ao Mbalax, como o estreou de maneira superlativa. Demora menos de um minuto para sermos sugados pelo furacão percussivo de “Mbeuguel Dafa Nekh”, e basta entrar o vocal de Mbene Diatta Seck para percebermos que não escaparemos tão cedo.

As outras quinze, em ordem de preferência:

Girl Unit: “Club Rez” (ouvir)

Tendo provado sua destreza quase narrativa em induzir e controlar as emoções do ouvinte – basta lembrar dos builds e catarses de “Wut” para comprovar essa habilidade, ou mesmo do cuidadoso sequenciamento das faixas nos seus dois primeiros EPs -, o Girl Unit resolveu fazer um disco jogando o tempo inteiro com estruturas e, consequentemente, com a nossa expectativa. O exemplo óbvio é “Double Take”, que entrega um gancho melódico impressionante aos quarenta e cinco do segundo tempo só para sumir por completo num fade incompreensível. Entretanto, a experiência mais radical fica por conta de “Club Rez”: uma simples alternância do build mais grandioso do ano com trechos de total anticlímax. A brincadeira é de parar o coração, e parece acenar com uma certa superioridade à geração de produtores que incluiu desavergonhadamente o Trance ao seu leque de sonoridades.

Blawan: “Why They Hide Their Bodies Under My Garage?” (ouvir)

Costumávamos tirar o chapéu para o Blawan devido em grande parte à sua inventividade com os padrões de bateria, embora estes nunca escondessem a ascendência untoldiana. Após “Getting Me Down” o cenário mudou e ele passou a se dedicar ao Techno reto e sujo, com mais inclinação às limitações do mundo analógico do que às infinitas possibilidades da produção digital. E o trunfo de “Why They Hide Their Bodies Under My Garage?” se encontra justamente no abandono da inventividade: nada aqui é novo ou reformulado, no entanto as suas habilidades recentes chegaram à máxima expressão. Texturas agressivas e atmosfera amedrontadora, além da transformação total de timbre e tempo dos vocais em busca do gancho perfeito, são características que constroem o conceito do His He She & She EP e o transformam no melhor filme de terror de 2012 – “Why They Hide Their Bodies Under My Garage?” é nada menos do que a revelação da identidade do assassino esquizofrênico engatada na perseguição final.

NHK’Koyxeи: “112” (ouvir)

No cada vez mais populoso cenário de interseção entre Techno e Noise, a regra parece ser a desconstrução de processos e estruturas, recontextualizando a repetição dançante na direção de paisagens bem menos convidativas que uma pista agitada – como é o caso de Pete Swanson e sua “Pro Style”. Com “112” a história é outra. No seu delirante andamento não há choque propriamente dito, a não ser pela configuração de barulhinhos que de início parecem adoráveis, mas vão ganhando um tom cada vez mais diabólico. Certamente Kouhei Matsunaga pensou no lado negro dos clubes para compor essa faixa paradoxal.

Zebra Katz e Njena Reddd Foxxx: “Ima Read” (ouvir)

Se você acha que a maior ameaça ao mundo machista do Hip Hop mainstream americano foi a infame carta aberta do Frank Ocean, reconsidere. A auto-afirmação bem resolvida e sem vergonha de Zebra Katz, Le1f e Mykki Blanco não só nos apresentou personas das mais interessantes surgidas no mundo da música nos últimos tempos, como também bagunçou o cenário pra valer. A influência do Vogue de NY se mostra na base econômica e no tom competitivo da letra de “Ima Read”, mas o luxo dos bailes é varrido pela frieza assustadora de Katz e de sua convidada, Njena Reddd Foxxx. A postura dos dois está mais para slasher movie do que para “Te Pego Lá Fora”.

Le1f: “Wut” (ouvir)

Enquanto Zebra Katz e Mykki Blanco ameaçavam nos fazer em pedacinhos, Le1f apareceu com malícia e entregou uma das faixas mais sedutoras de 2012. A voz grave, os versos rápidos, a escolha certeira de parcerias e, claro, o rebolado, o tornaram o nome mais promissor dessa turma de NY, e “Wut” funciona como uma perfeita carta de apresentação.

Four Tet: “128 Harps” (ouvir)

Uma das melhores surpresas do ano. A faixa mais física do Pink poderia ser trilha tanto de um balé quanto de uma apresentação de breakdance. “128 Harps” se retorce com graça e melancolia sob uma chuva de pratos, até que as harpas vencem a batida sincopada e os corpos finalmente podem descansar. Que ela seja desprovida da grandiosidade presente em grande parte do último álbum do Four Tet é seu charme especial, deixando-a mais terrena e acessível.

Mykki Blanco: “Wavvy” (ouvir)

“Play my track ‘cause the beat is sinister”, fala Mykki Blanco em “Haze.Boogie.Life”. Não, embora seja latente o esforço em nos assustar, algo que ameaça o igualar ao Marilyn Manson, por exemplo, não é porque ele é sinistro que continuamos ouvindo sua música. Em “Wavvy” o que interessa é o tom malandro incorporado no timbre rouco enquanto ele canta “We gettin wavvy, getting wavvy, getting wavvy”. Uma pequena flutuação de personalidade que fascina completamente.

Romare: “I Wanna Go (Turn Back)” (ouvir)

Não há novidade alguma em samplear/reeditar/remixar música africana, mas no curto espaço de tempo abrangido por Meditations on Afrocentrism, Romare provou que essa é uma arte para poucos. Mais do que apenas repetir um groove fácil ou um gancho de vocal, ele utiliza samples diversos e harmoniza tudo num cuidadoso trabalho com camadas. O Juke marca presença forte em “I Wanna Go (Turn Back)”, núcleo dançante do EP. Foi o suficiente para ficarmos ansiosos por mais Romare.

Untold: “Motion the Dance” (ouvir)

O Untold é o tipo de artista que aparece de vez em quando apenas para mexer com a estabilidade do ambiente. No conjunto de EPs espertamente intitulado de Change In a Dynamic Environment há a tentativa clara de abrir novas perspectivas, porém o choque não foi grande o suficiente para mudar o jogo. Ainda assim, a estranheza de ouvir “Motion the Dance” pela primeira vez é inesquecível.

Bookworms: “African Rhythms” (ouvir)

Mais um caso de música africana sampleada num resultado que aponta para o além. O Bookworms começa enganando com percussão animadinha, depois estufa a música com a sobreposição gradativa de várias camadas. Para aumentar a sensação de desnorteamento e suspensão, a maioria delas está cheia de efeitos, criando uma massa sonora que inevitavelmente induz ao transe durante quase 10 minutos.

Objekt: “Cactus” (ouvir)

Com apenas três singles lançados, o Objekt reduziu a pó praticamente todos os híbridos de Techno e Dubstep com “Cactus”. Tirando o 2562, a maioria dos produtores que se aventura nessa zona indefinida acaba fazendo uma versão pálida de um ou de outro. A abordagem cirúrgica de TJ Hertz, por outro lado, leva a atenção para cada elemento da música, e “Cactus” é esse Frankenstein muito bem costurado de wobble bass, pratos propulsivos e um jogo rítmico complexo.

Fantastic Mr. Fox e Alby Daniels: “Pascal’s Chorus” (ouvir)

Outro épico emocional com um pé na pista. Esse dueto fora do comum traz Alby Daniels num R&B angustiado durante o primeiro minuto da faixa, enquanto nos próximos seis a resposta vem na forma de melodias e ritmo bastante expressivos. Fantastic Mr. Fox com a classe de sempre.

Kodiak: “Spreo Superbus (Actress Remix)” (ouvir)

Uma vertiginosa faixa de pista transformada em viagem espacial, e também uma composição do Actress que pode ser fruída de modo independente. Motivo para celebrar.

Darq E Freaker e Danny Brown: “Blueberry (Pills & Cocaine)” (ouvir)

É fácil perceber o talento dos envolvidos em “Blueberry” isolando as partes da faixa. Os timbres vintage e a levada envolvente da base assinada pelo Darq E Freaker e o Rap junkie do Danny Brown desencadearam um processo explosivo, e “Blueberry (Pills & Cocaine)” já nasceu clássica.

The Bug e Inga Copeland: “Rise Up” (ouvir)

O conceito do Acid Ragga, novo projeto do Kevin “The Bug” Martin se mostra interessante logo no ponto de partida (Acid + Ragga, simplesmente), mas o resultado prático saiu melhor que a teoria. Inga Copeland dominou o primeiro riddim, contribuindo com um vocal que penetra diretamente no subconsciente e fica semanas na cabeça – um trabalho memorável por parte dos dois artistas.

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