Camarilha dos Quatro

Revista de crítica musical.

Melhores de 2012: Músicas – Marcus Martins

Metá Metá

Quatro faixas fundamentais:

Sun Araw, M. Geddes Gengras, The Congos – “Happy Song”
O título da faixa é justo, não apenas por se tratar de quase sete jubilosos minutos, mas também por tratar-se de um encontro feliz. Músicos que até onde se saiba não se conheciam e colaboram sob o incentivo de um selo. Sobre a fundação clássica e sólida do The Congos se constrói um verdadeiro monumento ao dub, à psicodelia, ao improviso de toda ordem. A faixa cresce na espiral do dub e dança ao redor dos vocais inspiradíssimos. Efeitos de sintetizadores, coloridos de estúdio, percussão inquieta colidem sem perder o prumo. “Happy Song” parece se sustentar no estímulo do encontro do novo com o novíssimo, da solidez do reggae com o espraiar dos experimentos, onde não sobra espaço para questões sobre passado e presente. Não há nada vintage aqui, apenas celebração e proeza artística. (ouvir)

Jeri-Jeri with Mbene Diatta Seck – “Mbeuguel Dafa Nekh”
Novamente estamos no campo da felicidade do encontro, nesse caso do seminal produtor Mark Ernestus (Basic Channel, Rhythm and Sound, Maurizio etc.), um apaixonado pelo dub, e o grupo rítmico Jeri-Jeri com a vocalista  Mbene Diatta Seck. A pulsante música dos senegaleses ganha uma precisão bem semelhante aos melhores momentos do  Rhythm and Sound sem perder um fiapo de energia e vibração. Pelo contrário, cada elemento cintila com invejável limpidez, seja a percussão que nunca se limita à repetição do tema, seja a guitarra que trava diálogos emocionantes com o canto elegante e potente de  Mbene Diatta Seck. (ouvir)

Burial – “Ashtray Wasp”

2011 já havia sido um ano surpreendente para os fãs de William Bevan, seja pelas colaborações, ou seja, pela abertura de sua paleta sonora, seja pela obra-prima “Street Halo”. Um novo álbum era aguardado para 2012, mas novamente fomos surpreendidos com um EP que bate os 30 minutos de duração e atinge seu ápice na épica “Ashtray Wasp”. Bevan choca ao manter na música todos os elementos e assinaturas que o celebrizou em seus lançamentos, mas dando a sua produção um caráter monumental que nem desconfiávamos possível. Pode-se argumentar que o dubstep enquanto movimento morreu em 2012, mas “Ashtray Wasp”, no lugar de fazer elegia, cria um dos mais criativos e excêntricos usos do vocabulário do gênero, apenas deixando evidente que enquanto dezenas de produtores e bandas tentam imitar a sonoridade de Bevan, ele já se encontra a uma longa distancia, e sua maestria reluz sem qualquer mácula. (ouvir)

Metá Metá – “Oya”
A canção popular, grande glória da música feita no Brasil em todas as épocas, em qualquer que seja o gênero, já nem mais se encontra em um impasse – se encontra estagnada. Em 2012, para ouvirmos boas canções foram necessários recorrer à sempre vigorosa obra nova de Caetano Veloso e Tom Zé, ou seja, foram poucas as exceções. Sim, tivemos bons discos, mas na maior parte do tempo foram obras que tentam mimetizar a música alheia, sejam os clássicos brasileiros, sejam o estilo da moda estrangeira. O cacoete sempre soa feio, tosco ou ridículo. A resistência parece escassa, e o Metá Metá volta quase solitário em 2012 com o álbum MetaL MetaL para dizer que ainda é possível. Uma faixa como “Oya” não deixa de dialogar com o melhor da chamada MPB mas, diferentemente de seus contemporâneos, ele conseguem perceber o que tornou  clássica a música de seus antecessores. Não basta ousadia ou estar antenado às novidades, é preciso ter verdade naquilo que se faz, é fundamental o devir, a gana de criar no lugar de colorir a pobreza sonora com  os tecidos coloridos da afetação de inteligência. Não é apenas a simbiose com a música africana e guitarra e sax jazzísticos, é também um crescente furioso que termina em pura catarse segurada com brilhantismo por Juçara Marçal (que certamente não passaria das primeiras fases do The Voice Brasil, amém).(ouvir)

Outros seis trabalhos sem par:

Four Tet – “Jupiters”
Kieran Hebden vem aprimorando seu procedimento como produtor desde sua reinvenção como DJ de techno/house. Seu método parece simples, uma base limpa, com poucos elementos. No caso de “Jupiters” temos uma linha de sintetizador que sofre poucas modificações em quase dois minutos de faixa. A partir daí, ele emprega uma de suas já clássicas quebradas, introduzindo uma estrutura percussiva sincopada que vai crescendo até se unir com a melodia do início e daí desenvolver diversas variações de adições, subtrações e modulações que leva a faixa pelo restante de seus quase seis minutos. Parece pouco, mas o resultado é dos empolgantes que um DJ conseguiu atingir nos últimos tempos. Sua música é sempre luminosa sem apelar para a farofada, esparsa sem a exaustão minimalista e inventiva sem perder o pulso, a todo tempo convidando ao mais legítimo deleite. (ouvir)

Jam City – “The Courts”
“The Courts”, assim como boa parte do álbum Classical Curves, é música para as pistas, no sentido de convidar a dançar e não ter vergonha disso, mas diferentemente de boa parte das música para as pistas de 2012, ela nunca é histérica. Impulsionada por um lindo groove de baixo e por percussão pesada, “The Courts” consegue aliar contundência e riqueza sonora, algo que quase toda a classe 2012 das vertentes do bass poderia aprender. O som é denso, contagiante e ainda sobra espaço para a percussão aprontar a todo momento, introduzindo estranhezas em timbres percussivos que nunca distraem. (ouvir)

Grizzly Bear – “Sleeping Ute”
“Sleeping Ute” abre Shields com um verdadeiro choque ao pensarmos no ritmo quase solene de Veckatimest. A  guitarra de Daniel Rossen nunca se apresentou tão inquieta e agressiva, repleta de de timbres mais metálicos que o usual para a banda. “Sleeping Ute” soa insegura sem permanecer hesitante. Imagens de caminhadas-mergulhadas-sonhos lúcidos pela região das montanhas, que emprestam o nome à faixa, dão o tom do que ouvimos, o confronto das próprias incertezas com a natureza monumental e opressiva que encontra nos arranjos não apenas um espelho quanto sua verdadeira fonte de espanto. (ouvir)

Le1f – “Wut”
Le1f cometeu a faixa mais abusada de 2012, deixando para trás toda a turma que se esforça para ser esquisitinha. A letra confronta sem perder o bom humor, a produção é simples e calcada em palmas e buzinas repetitivas e viciantes. A levada tem o melhor suingue robótico recente sem precisar da grife de nenhum superprodutor (se conseguirem assimilar a viadagem sem vergonha, colaborações estreladas são o próximo passo). (ouvir)

Fay – “How It Feels Good”
Vocais autenticamente pop, música picotada ao ponto de em alguns momentos parecer um remix de juke ou do The Field, percussão que vai das palmas às batidas esqueléticas e uma perene sensação de instabilidade sem perder a leveza, a estrutura sugere o que seria um Autechre recortando sem piedade uma canção pop. (ouvir)

M.I.A. – “Bad Girls”
A rainha do “pop global” está quieta desde o lançamento do inconstante Maya, tendo produzido apenas a revigorante mixtape Vicki Leekx, de onde retirou “Bad Girls”, e burilou a produção cheia de arestas de urgência do original para resultar em uma das mais imediatas e gratificantes canções pop de 2012. Acompanhada daquele que talvez seja o melhor vídeo de 2012, “Bad Girls” é bombástica e parece a resolução de tudo que soava grosseiro em Maya, sugerindo um parentesco com momentos mais acessíveis de Kala como “Paper Planes”, e uma melhor manifestação de seu feminismo-pop. (ouvir)

Mais destaques de 2012:

Killer Mike – “R.A.P. Music”
Nenhum disco em 2012 foi tão contundente, agressivo e politizado quanto  R.A.P. Music. Em poucas passagens o americano se furta a meios tons. Tanto a poesia quanto a produção trabalham em busca do máximo impacto a todo momento, e talvez o ápice dessa estratégia seja o murro na cara de “Reagan”. Apesar de não contradizer aquilo que a precede, a faixa que dá título e fecha o álbum é ao mesmo tempo uma profissão de fé e um tributo ao rap e ao poder da música. Quando ele diz “What my people need and the opposite of bullshit” e em seguida desfila o nome mais de uma dúzia de artistas negros, ele está muito menos se incluindo no mesmo panteão (como quiseram críticos preguiçosos), que fazer referência à tal potência que ele consegue sentir nos ossos. Essa fé justifica o esforço combativo e criativo de todo o álbum que a precede. (ouvir)

Bee Mask – “Scanops”
A mais recompensadora peça de sintetizadores de 2012 em uma única faixa. Os vocais de Katherine Brady, do Autre Ne Veut, sobrepostos com as séries minimalistas e vigorosas de sintetizadores e sinos, que vão de uma quietude borbulhante e seguem num crescente de intensidade, até o momento em que entra uma vigorosa linha de grave que sobrepõe ambos os elementos e trava com estes uma disputa por espaço. A faixa possui mais de 15 minutos de duração e em momento algum ela perde o seu vigor, colocando o Bee Mask entre os principais artífices da música eletrônica de 2012. (ouvir)

Emptyset – “Core”
Em 2012 vimos uma enxurrada de produtores abraçando alguma forma de techno detonado, sejam aqueles que já praticavam o techno como o Regis, à extravagante e prolixa produção de Dominick Fernow sob várias alcunhas, passando pela luxuosa evolução da música de Andy Stott. O Emptyset já vinha praticando diversas formas de associações entre os timbres mais abrasivos do noise e os beats eletrônicos, mas com “Core” e outras faixas do EP Collapsed ele foi certamente o mais contundente. “Core” começa com um martelar ruidoso que vai aos poucos se agregando a outros timbres, cada vez mais ruidosos sem necessariamente atingir nenhum ápice ou se dissolver. A faixa é um monumento ao simples poder do ruído extremo associado ao ritmo das batidas, reduzindo ambos ao denominador mais elementar possível e alcançando uma potência que mesmo bandas de doom não conseguiram em 2012. (ouvir)

Liars – “No. 1 Against the Rush”
WIXIW se apresenta como um dos discos mais experimentais do Liars,voltado ao intenso uso de elementos eletrônicos e de música concreta. Lendo isso, alguém pode pensar que a banda abandonou a abordagem direta dos últimos discos e retornou aos experimentos de They Were Wrong, So We Drowned. Não poderia haver maior engano: apesar de todo o prometido em termos de experimento e guinada eletrônica estarem lá, o que mais impressiona em WIXIW é como o som da banda é imediatamente reconhecível e acessível. Aqui não temos a urgência do álbum autointitulado, mas a inquietude e tensão se mantém de forma brilhante. (ouvir)

Dirty Projectors – “About to Die”
Swing Lo Magellan não consegue alcançar a mesma maestria de Bitte Orca, mas seus pontos altos, como “About to Die”, uma das raras canções de 2012 que conseguiram associar complexidade estrutural em sua sinuosidade e a pungência das perorações de Longstreth a respeito das angústias juvenis que permeiam todo o álbum. (ouvir)

Black Pus – “Play God”
Brian Chippendale substitui um pouco da virulência de sua banda de um homem só por um pouco mais de fidelidade sonora. Conseguimos ouvir um pouco mais os vocais e a percussão domina toda a faixa que aos poucos recebe toda forma de ruído, de samples vocais cartunescos até a chegada de um baixo no melhor estilo motosserra. Tudo se organiza em improvisos impressionantes e Chippendale não demonstra a menor propensão a diminuir o ritmo de sua produção insana. Em meio a tanta música afetada e de pretensão vazia, “Play God” ri na cara dos caretas. (ouvir)

Janka Nabay & the Bubu Gang – “Eh Mane Ah”
Não consegue atingir a mesma maestria do Jeri-Jeri, mas dizer isso pode soar tolo e desnecessário ao ouvirmos essa contagiante  ode ao poder da dança transmitido pelo bubu. (ouvir)

Nicki Minaj – “Beez In The Trap”
Nenhuma música nas paradas conseguiu ser tão inventiva, demente, engraçada, dançante aliado ao melhor beat comercial de 2012 e ao carisma incontornável da maluquete. (ouvir)

Siba – “Ariana”
Avante foi daqueles discos de 2012 que receberam elogios quase unânimes e depois foram injustamente esquecidos ou negligenciados por discos francamente inferiores e mais vendáveis. “Ariana”, além de possuir estrutura simples, tem excessivo parentesco com sonoridades nordestinas bastardas. Em certos momentos fica evidente que Siba não esconde beber das mesmas fontes que nos deram o brega , mesmo que aqui aliadas à suas associações com a guitarra africana que parece ter influenciado bastante o disco. (ouvir)

Mykki Blanco – “Wavvy”
Se o parceiro Le1f optou por tratar das questões de gênero com mais abuso e humor, Mykki Blanco, apesar de não lhe faltar humor, optou pelo confronto agressivo. Ele pode fazer gay-rap, mas em sua música estão ausentes tons rosados e femininos para dar lugar à fera que sai do gueto – negro e homossexual – para exigir seu espaço sem concessões e com toda a exuberância que lhe convém. (ouvir)

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: