Camarilha dos Quatro

Revista de crítica musical.

Melhores de 2012: Discos – Ruy Gardnier

Florian Hecker

Os quatro essenciais:

Grizzly Bear, Shields (Warp)
Não tenho nada a fazer além de repetir o encerramento do meu texto sobre o disco, ainda em setembro: “Se a cada ano o pop precisa ser redimido por um disco, em 2012 a busca pode ser dada por terminada, porque Shields é esse disco. Ele tem a simplicidade e a singeleza da emoção direta, a inteligência e o refinamento da emoção trabalhada, e a sabedoria intuitiva de identificar os tempos dos doces idílios e os das tempestades. É muito raro fazer isso de música a música, e dentro de um álbum considerado como uma unidade. Ouvindo Shields, parece fácil.” (ler a crítica)

Hecker, Chimerization (Editions Mego)
No final do ano a eMego solta três discos com as versões em persa, em inglês e em alemão de Chimerization, a obra de arte sonora feita por Florian Hecker para a Documenta de Kassel. É um experimento absurdo sobre dicção, captação sonora em meios especiais (câmaras anecoicas), decomposição sonora e uma série de opeearções teóricas complexas sempre estruturantes no processo expressivo de Hecker. Mas mesmo que nada disso existisse, Chimerization ainda seria o repositório reluzente dos sons mais anômalos e maravilhosos criados esse ano, sons que perpassam a música e a não-música e mostram que ainda existe um enorme terreno cinza a ser explorado em termos de perturbação sensorial. Majestoso, como Acid in the Style of David Tudor em sua época. (texto por vir)

Scott Walker, Bish Bosch (4AD)
Pola X, ano 1999. Lá estão juntos dois artistas excêntricos e bissextos, Leos Carax e Scott Walker. Por alguma brincadeira da natureza, treze anos depois eles lançaram obras que marcaram o ano em suas respectivas artes (a de Carax, para quem não sabe, é o cinema, e o filme Holy Motors) por uma criatividade alucinada, uma poesia que reúne o sublime e o mau gosto, nos tira de qualquer zona de conforto na experiência artística para apresentar um ser aberrante, belo e único. Ópera-solilóquio para o fim dos tempos. (texto por vir)

Sun Araw & M. Geddes Gengras meet the Congos, FRKWYS Vol. 9: Icon Give Thank (RVNG Intl.)
Em algum momento a série FRKWYS, juntando figuras da nova e da velha geração para produzir discos coletivos, ia dar um rebento histórico. Mas quem imaginaria que sairia uma obra-prima lapidar do encontro de Sun Araw, do até então semidesconhecido M. Geddes Gengras e do lendário grupo vocal The Congos? A espontaneidade faz a música fluir como água, os novos sons dos meninos brancos excitam a criatividade e a ousadia dos veteranos negros e dali brotam cânticos de incrível força mobilizadora, uma ritualística dócil, delicada e ao mesmo tempo telúrica, brutalmente material. (ler a crítica)

Depois, na ordem:

5. Metá Metá, MetaL MetaL (s/g)
O trio formado por Juçara Marçal, Kiko Dinucci e Thiago França reorientou suas coordenadas, deixou a faceta MPB de câmara de lado, eletrificou o som e deixou-se dominar por completo pelas já profundas influências do candomblé e da música africana. Música de pressão, música de garra, heavy metal reimaginado como atitude e pegada, onde um violão pode ser rítmico, pode ser sujo, pode ser roqueiro e ainda assim lírico. Grandes composições, grandes arranjos e um absurdo foco musical para criar um disco que já nasce clássico na música brasileira. (texto por vir)

6. Kevin Drumm, Relief (Editions Mego)
Kevin Drumm deixa de lado seus experimentos com feedbacks ambient para atacar impiedosamente nossas orelhas com volumes e frequências avassaladoras, em eterno fluxo, mas ao mesmo tempo construindo-se com tintas minuciosas e cheias de relevo, padrões indo e vindo por nossos ouvidos como uma dança inesperadamente harmoniosa apesar de todo vandalismo causado pela intensidade do volume e da pressão que sai dos alto-falantes, no talo. Imenso, intenso, inesquecível. (ler a crítica)

7. KTL, V (Editions Mego)
Eletroacústica inebriante, drones robustos, lapidação de frequência e de ataques, a prudência como um credo, a ciência das atmosferas e da música que vai se fazendo a seu tempo. O quinto álbum do KTL surpreende pela negociação em outros termos das estratégias expressivas do drone doom, mas deslumbra mesmo é pela absoluta minúcia e controle do tempo, provocando algumas das mais intensas sensações de imersão e flutuação dos sentidos vivida em 2012. (ler a crítica)

8. Keith Fullerton Whitman, Generators (Editions Mego)
Na verdade não só Generators, mas também Occlusions e o split com Eli Keszler fazem de Keith Fullerton Whitman um dos nomes incontornáveis da música de sintetizador e da música improvisada no ano. Empenhado em trabalhar com sintetizadores em tempo real, KFW intensifica ainda mais seus blips em festa e de quebra cria um paralelismo entre sua própria estética granular e a pontilhista arte de Eli Keszler. (ler a crítica)

9. Shackleton, Music For the Quiet Hour/The Drawbar Organ EPs (Woe To the Septic Heart!)
E eis que o primeiro álbum propriamente dito de Shackleton é uma peça conceitual, uma suíte reflexiva, em tempos límpida, em tempos lúgubre, sempre brilhante na criação de climas e na relação temporal estabelecida com os elementos que entram na trama. Já os EPs Drawbar Organ são maravilhosas explorações de instrumento que recuperam o Shackleton mais beat scientist, mais rhythm dread. Juntos, são formidáveis explorações da vastidão de terreno que o pós-dub ainda tem para trabalhar. (ler a crítica/ler a crítica)

10. Tom Zé, Tropicália Lixo Lógico (Passarinho)
O humor, o deboche, o encantamento da observação dos gestos simples, a burilação semântica e fonética, o caleidoscópio de ritmos, gêneros e geografias, a capacidade de teorizar no limite do absurdo, tudo isso torna Tropicália Lixo Lógico um dos álbuns mais fascinantes do ano. Nele Tom Zé encontra uma nova leveza, um descaramento de fazer pop pelo pop e, ao mesmo tempo, como de hábito, discorrer sobre sociedade, comportamento, música, nas áreas em que elas se confundem. No ano da morte de Décio Pignatari (referenciado, aliás, em “Tropicalea Jacta Est”), Tom Zé renova a fé na inteligência e na sensibilidade de tropicalizar signos, extrair o sublime do prosaico e inserir o coração numa paisagem de elevador. (ler a crítica)

11. Nazoranai, Nazoranai (Ideologic Organ)
Stephen O’Malley está aqui de novo (e nem é a última vez!), mas a razão de ser de Nazoranai é Keiji Haino, que com sua guitarra e com sua voz passeia pelos padrões rítmicos sumários porém imponentes criados por Oren Ambarchi e O’Malley, disparando os agudos metálicos de sua guitarra com a violência inspirada de sempre. A última faixa, mais serena e etérea, só serve para confirmar que Haino continua jogando em todas e deslumbrando em todas elas. (ler a crítica)

12. Animal Collective, Centipede Hz (Domino)
Em Centipede Hz o Animal Collective foge da obrigação de ser o farol do rock por vir e, sem qualquer peso nas costas, produz faixas iluminadas com pop excêntrico, com esquisitices de arranjo e com delícias melódicas que não se acha por aí em qualquer grupo de rock. As fórmulas podem estar agora mais claras, mas isso não torna as canções mais fracas, de jeito nenhum: “Today’s Supernatural”, “Monkey Riches”, “Amanita”, “Rosie Oh”, “Applesauce” são pérolas e muito melhores do que quase tudo dessas listinhas de melhores do ano cheia dos artistas hypados de 2012 (inútil citar, se você não sabe, melhor pra você). (ler a crítica)

13. Jam City, Classical Curves (Night Slugs)
No que diz respeito à linhagem da eletrônica underground do Reino Unido e sua constante reinvenção através das imbricações de estilos e subgêneros, nenhum disco esse ano chega aos pés de Classical Curves, um disco eminentemente festivo mas que ao mesmo tempo recusa todas as armações fáceis de equilíbrio de batida e de relação ritmo-melodia, abusando de arranques percussivos e excessos de diversos tipos quando está em seu melhor. (ler a crítica)

14. Actress, R.I.P. (Honest Jon’s)
Aos poucos Darren Cunningham vai redesenhando sua estética DDA em padrões mais interessantes do que os de Flying Lotus, que parece cada vez mais perdido em seu universo de genialidade rítmica e obviedades melódicas. R.I.P. passeia por diversas paragens muito distintas, mas sempre com uma incrível sensibilidade para ambientizar melodias arquetípicas (o que sugere alguma filiação ao Caretaker e ao Aphex Twin dos primeiros Selected Ambient Works) e alterná-las com um bedroom techno difícil de circunscrever, mas que é extremamente cativante e, a seu modo, psicodélico. (ler a crítica)

15. Chinese Cookie Poets, Worm Love (Sinewave)
2012 foi um ano formidável para o underground carioca, que vem sedimentando-se numa cena e resultando em grandes shows e belos discos. Nesse ano houve belos álbuns do Duplexx e do Chelpa Ferro (e, um pouco mais abaixo, Bemônio, Sobre a Máquina etc.), mas o campeão do ano é mesmo o Chinese Cookie Poets, que em seu primeiro álbum reinventa seu próprio som através da colagem, do loop e das feitiçarias de pós-produção, muitas ideias borbulhando por minuto, atenção frenética, apuro extremo, ricocheteios sensoriais a rodo. Puzzle jazz from hell. (ler a crítica)

16. Liars, WIXIW (Mute)
O Liars é mais fascinante a medida que o tempo passa e a cada disco eles inventam uma forma de renovar seu som e paradoxalmente permanecerem cada vez mais fiéis a si mesmos, em atitude, em energia e mesmo em sonoridade geral, ríspida, insidiosa, ameaçadora mas de longe. WIXIW vai ganhando corpo e forma aos poucos, e quando chega ao fim o retrato criado é da consistência de sempre, mesmo passando por baticuns festivos (“Brats”) ou tecnopops dóceis (“No. 1 Against the Rush”). Haja cacife. (ler a crítica)

17. Peaking Lights, Lucifer (Mexican Summer)
Psicodelia indie e psicodelia jamaicana se fundem de formas imprevisíveis a cada versão do Peaking Lights. Em seu segundo disco, as tinturas pop dominam, a pressão dos subgraves diminui sensivelmente, mas as estruturas abertas e os preenchimentos de guitarra e teclado permanecem tornando as composições da dupla Coyes/Dunis algumas das viagens sonoras mais excitantes da atualidade, no convívio saboroso da simplicidade dos presets de bateria lo-fi com a sensibilidade das melodias e dos preenchimentos dubby. (ler a crítica)

18. Nick Edwards, Plekzationz (Editions Mego)
Nick Edwards = Ekoplekz. Plekzationz = sessões longas em que o Mr. Plekz pode ser visto controlar seus sons e fazer variá-los com mais fôlego. 2012 foi um ano bastante produtivo para o Ekoplekz, com a parceria eMMplekz (Ekoplekz + Mordant Music), com o lançamento do segundo volume dos Intrusive Incidentalz e com o cassete duplo Skalectrikz com sessões ao vivo e gravações caseiras. Mas o disco a guardar é esse aqui, pela descoberta de uma nova faceta da criatividade de Edwards.

19. Rhodri Davies, Wound Response (Altvinyl)
Palavras não conseguem descrever como Rhodri Davies – um artista que estamos acostumados apenas a ouvir em grupos de improvisação – reinventa a sonoridade da harpa, sobretudo quando está sozinho, como neste Wound Response. O instrumento apolíneo torna-se sujo, mundano, reverberante em rispidez, e suas tramas melódicas atingem patamares inesperados, soando eventualmente como um likembé ou como uma guitarra preparada, mas sempre mantendo um mistério supremo entre a placidez e a cacofonia. (texto por vir)

20. Stephen O’Malley & Steve Noble, St. Francis Duo (Bo’Weavil)
A mais física e estimulante das formas de improvisação, o duo, e uma de suas melhores formações, a bateria e a guitarra, simplesmente fazendo música incendiária e monumental, das partes mais catárticas de power rock até os silêncios estudados e os tempos mais plácidos. (ler a crítica)

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