Camarilha dos Quatro

Revista de crítica musical.

Melhores de 2012: Discos – Igor Cordeiro

Shackleton

Cinco discos essenciais:

Jam City: Classical Curves (Night Slugs)

Eis um LP que ultrapassou seu nicho e alcançou o difícil feito de mostrar tanto a evolução quanto o fortalecimento da identidade do seu autor, o jovem de vinte e poucos anos chamado Jack Latham. No centro de Classical Curves está a dance music, mas a maneira com a qual o álbum foi construído sugere tantos desdobramentos que é praticamente impossível arriscar uma definição. Ocasionalmente você vai acreditar tratar-se de um disco instrumental de synth-pop, para logo em seguida ser convidado a refletir sobre as relações corporais na pista de dança, ou ainda, sobre o que exatamente faz uma faixa ser apropriada ou não para a pista. Se a imaginação é realmente um músculo, como afirma Carrière, nada mais sadio do que levá-la para dançar com essa obra-prima. (ler a crítica)

Sun Araw & M. Geddes Gengras Meet The Congos: Icon Give Thank (RVNG Intl.)

A melhor maneira de fruir Icon Give Thank é esquecer dos nomes e histórias por trás do álbum e somente aproveitar a avalanche de boas vibrações. Sem expectativas e sem julgamento, a experiência que já é visceral se intensifica, tornando-se uma sessão meditativa intensa e carregada do mais puro êxtase. (ler a crítica)

Liars: WIXIW (Mute)

O Liars é uma das bandas mais fáceis de ser fã, se o ouvinte goza de um mínimo senso de aventura e abertura para o novo. Mais do que constantes reformulações, a cada disco esse trio adiciona variáveis a um tipo de composição que há muito tempo já se tornou marca registrada deles. Alardeado como o álbum eletrônico do Liars, WIXIW de fato conta com mais sintetizadores e baterias eletrônicas que o normal, mas o que há de novo não serve para desviar a rota da banda, e sim para cavar mais fundo nas suas próprias entranhas. Os fãs agradecem. (ler a crítica)

Laurel Halo: Quarantine (Hyperdub)

Nomeando faixas com substantivos como “Carcass”, “Tumor” e “Joy”, e desferindo versos tão diretos quanto “travelling hard / don’t go away”, Laurel Halo fez o disco mais frontal e, paradoxalmente, enigmático de 2012. A frontalidade vem da maneira como ela se apresenta como cantora, com vocais claros que ocupam posição central na maior parte do tempo, mas que se tornam uma presença inquietante pela maneira com a qual ela os processa, seja os colocando em primeiríssimo plano ou modificando levemente o pitch de algumas frases. A pista mais importante é dada na última faixa: “words are just words that you soon forget”. Impossível não apertar o play tão logo Quarantine chega ao fim, para tentar resgatar tudo que foi dito.

Shackleton: Music For The Quiet HourThe Drawbar Organ EPs (Woe To The Septic Heart!)

O conceito de artefato que permeia toda a obra de Sam Shackleton ganha seu exemplar mais grandioso. De um lado, um (outro) conjunto de EPs que documenta a fértil descoberta de um instrumento com o qual não havia trabalhado antes – o drawbar organ do título. De outro, um monumento em cinco partes que não somente é sua composição mais ambiciosa, como também nos mostra que, além de tudo, nosso herói é capaz de dominar a arte da narrativa. (ler a críticaler a crítica)

Os outros quinze, em ordem de preferência:

Metá Metá: MetaL MetaL (s/g)

É compreensível a unanimidade que cerca MetaL MetaL. Num cenário repleto de artistas que não sabem o que querem, refugiados na fofice ou na ironia, o Metá Metá apresenta um trabalho vigoroso e honesto. Um verdadeiro furacão que desenterra raízes numa configuração tão certeira que torna qualquer resistência impossível.

Four Tet: Pink (Text)

Não é devido ao caráter compilatório – reunião de faixas lançadas anteriormente no formato single – que ignoraremos Pink como documento definitivo da fase atual de Kieran Hebden. Também não é necessário muito esforço para perceber os timbres em comum e a rigorosa pesquisa temática que permeia todas as faixas, ficando difícil de acreditar que Hebden não tenha vislumbrado a possibilidade de reuni-las no formato LP ao decorrer dos lançamentos. A essa altura, não faz diferença se foi premeditado ou algo que ganhou forma com o tempo, então apreciemos o grande resultado. (ler a crítica)

Actress: R.I.P (Honest Jon’s)

Está claro que a reflexão acerca da dance music, suas formas, intenções, público e as relações com outros gêneros musicais, tema recorrente de uns anos pra cá, tem no Actress um de seus principais incubidos. No entanto, frente aos outros representantes dessa pesquisa (alguns deles podem ser identificados nessa lista), os trabalhos de Darren Cunningham sempre parecem mais complexos, profundos e inquietantes. Não  se sai incólume do contato com a alma que atravessa composições aparentemente desajeitadas como “Raven”, por exemplo, tornando inevitável o constante retorno a R.I.P. (ler a crítica)

Animal Collective: Centipede Hz (Domino)

A volta de Deakin tinha que ser comemorada em grande estilo, e o Animal Collective acabou fazendo seu disco mais solto e efusivo. Feelgood do início ao fim, Centipede Hz é uma coleção de canções pop que também retoma aquela vontade de cantar e dançar em volta da fogueira que havia deixado de ser a marca do grupo a partir de Strawberry Jam. E se falta economia nos arranjos, é apenas para mostrar quanta energia bruta ainda reside nesses quatro músicos. Afinal, “sometimes you gotta go get ma-a-a-a-ad”. (ler a crítica)

MM/KM: MM/KM (The Trilogy Tapes)

Da colaboração entre Kassem Mosse, um dos nomes mais importantes da eletrônica contemporânea, e (o não tão famoso) Mix Mup, nasceu um dos álbuns mais viciantes do ano. Se Mosse já era conhecido por sua falta de compromisso com gêneros e cenas específicos, além dos grooves nada ortodoxos, a união de forças só trouxe a potencialização das características que já amávamos no trabalho dele. Tudo é possível em MM/KM, a única certeza é que você não vai parar de sacudir.

Silent Servant: Negative Fascination (Hospital Productions)

Pós-punk, industrial, EBM e techno são os alicerces da imaginação de Juan Mendez. Com o fim do seminal coletivo Sandwell District, Mendez migra para o selo de Dominick Fernow para o lançamento de seu primeiro álbum, e entrega algumas de suas melhores produções. O que mais impressiona é o foco: são pouco menos que 40 minutos de audição concisa e de seriedade imperturbável – e assustadora, em alguns momentos.

Holly Herndon: Movement (RVNG Intl.)

A voz, um elemento decisivo em vários itens dessa lista, também é a força motriz de Movement. Na verdade, falar em voz talvez seja circunscrever excessivamente a idéia do álbum, já que a base de “Breathe”, por exemplo, são os sons da respiração. O conceito é esticado até o limite, assim como as vozes processadas ao extremo, dando origem a formas dançantes. Assim como Jam City e Andy Stott, Holly Herndon coloca a relação entre música e corpo em foco, aqui de maneira adoravelmente instigante.

Andy Stott: Luxury Problems (Modern Love)

Assim como o Liars em WIXIW, esse ano vimos Andy Stott adicionar uma variável ao Techno lânguido e pantanoso que marcou os memoráveis Passed Me By e We Stay Together. Porém, como que inebriado pelo próprio feitiço, a utilização dos vocais femininos desencadeia uma mutação profunda na música de Stott. O arrebatamento em Luxury Problems começa pelo choque do novo com “Numb”, mas é na faixa-título que o álbum mostra a que veio, dotando de sensualidade intensa um som que parecia habitar um pólo completamente desprovido desta.

Vessel: Order Of Noise (Tri Angle)

Pegue a experimentação com timbres e formas executada pelo Actress, e substitua o peso da influência Glitch pela presença constante dos valores de produção do Dub. As composições do Vessel em Order Of Noise são esparsas, quentes e graves, se situando num canto oposto do mesmo plano do qual o Actress faz parte – um lugar mais vazio e onde chega bem menos luz.

Traxman: Da Mind Of Traxman (Planet Mu)

A janela aberta pelo Planet Mu de Chicago para o mundo ganha um de seus produtos mais expansivos. Sendo o primeiro álbum de um artista já veterano, Da Mind Of Traxman funciona como um showcase de suas habilidades, quase uma compilação das mais diversas idéias musicais – e devido a isso não haveria título melhor para batizá-lo. Esse fator faz com que retomemos o fôlego ciclicamente durante a audição, e transforma o disco num dos mais prazerosos da safra de juke/footwork americano com o selo de aprovação de Paradinas. (ler a crítica)

NHK’Koyxeи: Dance Classics Vol. II (PAN)

Os Dance Classics de Kouhei Matsunaga podem parecer insignificantes frente à sua vasta discografia, e não tão relevantes pelo fato de que o cenário no qual se inserem se encontra populoso o bastante nesse momento, mas permanecemos voltando aos dois volumes principalmente pelo efeito desorientador causado pelas melodias aliadas ao peso dos graves e ao fantástico desenho de som. Algumas faixas, como “112” e “614”, já são clássicas de fato.

Dirty Projectors: Swing Lo Magellan (Domino)

David Longstreth e companhia num momento brilhante de simples songwriting. É claro que, sendo o Dirty Projectors, ainda temos detalhes de adorável estranhamento, como a percussão de “See What She Seeing” ou o nervosismo de “Just From Chervon”, mas é latente a intenção de apresentar um som mais despido e estabelecer uma conexão mais próxima com o ouvinte. Acertaram em cheio.

Keith Fullerton Whitman: Generators (Editions Mego)

Generators consiste no registro das duas últimas performances da peça “Generator”, acontecidas em Baltimore e no Brooklyn em setembro de 2010, e traz à tona questões relativas à particularidade de cada experiência de execução musical ao vivo. Se essas nos são apresentadas como versões definitivas, a audição de registros tão díspares da mesma peça mostra que tal conclusão está ligada mais a uma atitude arbitrária do autor/executante do que à conquista do resultado perfeito. Entre um extremo e outro, podemos vislumbrar as infinitas possibilidades que se abrem, e fica a sensação de termos ouvido um fragmento da plenitude. (ler a crítica)

Micachu and The Shapes: Never (Rough Trade)

Só no mundo particular de Mica Levi para encontrarmos Joe Meek, música concreta, punk rock e pop num formato convidativo. Never funciona tanto como música imediata, pelos ganchos e pela energia do trio, quanto para ouvintes mais preocupados com o prazer dos detalhes.

Jahiliyya Fields: Unicursal Hexagram (L.I.E.S.)

De um lugar improvável brota essa salada de referências chamada Unicursal Hexagram. O ocultismo barato poderia denunciar um filhote tardio do witch house, quando na verdade o foco do Jahiliyya Fields é a utilização de sintetizadores analógicos na criação de peças um tanto desprovidas de romantismo, mas hipnóticas e estranhamente propulsivas.

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