Camarilha dos Quatro

Revista de crítica musical.

Melhores de 2012: Discos – Marcus Martins

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Essenciais:

Demdike Stare – Elemental [CD] (Modern Love)

Elemental soa como uma viagem sonora pela produção contemporânea, e nisto o álbum soa menos um obra composta  (aparentemente houve pouco espaço para improvisos) que uma field recording de algum festival que incluísse experimentos em batidas, ambiências, africanismos, samples, pioneiros eletrônicos, sons analógicos e todo tipo de obscuridade. Se fosse apenas isso teríamos uma curiosa peça etnografia sonora, mas o que torna a obra do Demdike Stare única é como eles manejam esse laboratório sonoro para construir algo que não encontra par entre seus contemporâneos.

Scott Walker – Bish Bosch (4AD)

Walker disse já várias vezes em entrevistas que seu processo criativo passa por criar imagens sonoras para as letras que escreve, mas talvez seja justo argumentar que, a despeito da afirmação e da técnica peculiar, a música que ouvimos nada tem de utilitária ou meramente ilustrativa. Pelo contrário, as músicas pegam as imagens e ideias sugeridas pelas letras, muitas vezes crípticas ou no máximo alusivas, e lhe dão corpo, estatura e explodem as possibilidades de interpretação unívoca.

Muito foi escrito sobre as dezenas de referências narrativas e sonoras e a forma como Walker as reprocessa e as retira de seu contexto deixando principalmente estranheza – um som de peido não perde completamente sua hilaridade e ainda sublinha a anomalia de seu contexto. Bish Bosh é menos opressivo que Tilt e The Drift, dando espaço para algo que podemos chamar de progressão melódica em algumas passagens e isso apenas apenas possibilita que percebamos como maior clareza a danação cômico-infernal das composições.

Shackleton – The Drawbar Organ/Music for the Quiet Hour (Woe To the Septic Heart!)

Sam Shackleton vem construindo aquela que pode ser considerada a mais invejável carreira da música eletrônica do séc. XXI, desde a impactante e curta carreira de sua Skull Disco à carreira solo que, apesar de trabalhar com elementos sonoros facilmente reconhecíveis, ganha a cada lançamento uma singular profundidade e isolamento da produção contemporânea. Quando ainda não era moda mutilar o techno, ele fez as mais frutíferas quebras de barreiras entre os gêneros, e hoje é impossível classificar sua música como dubstep, techno, house e a própria ideia de que ele seja um DJ soa estranha.

O lançamento de The Drawbar Organ/Music for the Quiet Hour pode ser tecnicamente considerado seu álbum de estreia, uma vez que The Three EPs já refuta no título sua condição de álbum e Fabric 55 é uma falsa mixtape. Mas importa que esse álbum duplo tem Shackleton investindo em uma prodigiosa abertura de novas possibilidades sonoras com The Drawbar Organ, ao mesmo tempo em que refina de forma magistral seu som-assinatura em Music for the Quiet Hour.

Sun Araw & M Geddes Gengras meet the Congos – Icon Give Thank (RVNG Intl.)

Como já dito a respeito de “Happy Song”, o encontro que testemunhamos em Icon Give Thank é raro e exemplar: jovens artistas alcançam um outro nível em sua produção e veteranos que desconfiávamos cristalizados ganham nova relevância. Apesar do caráter relaxado das faixas, elas nunca são frouxas ou mal acabadas. O álbum surpreende de forma espetacular, juntando características de cada parte, resultando em algo de um vigor que nenhum dos integrantes tenha alcançado (no caso do Congos, ao menos não em algumas décadas).

Seis álbuns que se destacam:

Mark Fell – Sentielle Objectif Actualité (Editions Mego)

Tecnicamente Sentielle Objectif Actualité é um disco de remixes dos singles que Mark Fell lançou recentemente sob o nome de Sensate Focus, mas a verdade é que o resultado que ouvimos guarda pouca fidelidade aos originais (sendo que um deles já se tratava de remixes de trabalhos anteriores de Fell) e é nisso que reside a grandeza do álbum, que leva a música de Fell para mais longe dos beats de sua obra pregressa, incluindo o Sensate Focus, e aprofunda sua relação com o próprio estatuto da construção e modelagem sonora. De forma curiosa o release disponível no site da Editions Mego lista as técnicas e equipamentos utilizados e estes nada revelam do porque as faixas soam daquela maneira. Tudo isso para dizer que Sentielle Objectif Actualite é uma exemplar aula na desconstrução sonora e nas infinitas possibilidade do estúdio como elemento criativo fundamental na produção contemporânea e nisso ele se coloca em um campo diametralmente oposto ao do sr. Ekoplekz e seus improvisos avessos à pós-produção.

Grizzly Bear – Shields (Warp)

É difícil defender em palavras um disco do Grizzly Bear. Já tive dificuldade de refutar algumas troças jocosas de conhecidos quanto aos discos do grupo e Shields se mostra ainda mais difícil nesse ponto. O disco não se pretende vanguarda de nada, cada um de seus elementos separados são ordinários (mesmo que lindamente executados) ou convencionais. O que separa Shields de todo o resto da turma de 2012 é sua pungência, é sua explosiva capacidade de nos fazer esquecer de nós mesmos e acompanhar as perorações de seus integrantes como se fossem nossas. Isso, quase ninguém na terra arrasada da música pop contemporânea parece conseguir chegar perto.

Jason Lescalleet – Songs About Nothing (Erstwhile)

Songs About Nothing soa como um manifesto sobre coisa alguma, ou pelo menos, um manifesto sobre algo difuso e que ao final da audição desse ímpar e estranho álbum não temos uma clara certeza do que acabamos de ouvir – e daí vem um de seus maiores trunfos: são poucos os álbuns conceituais de música experimental que conseguem permanecer na memória e perturbar o ouvinte a refletir a seu respeito. Outro é que não é fácil construir um álbum de aparência tão séria e acadêmica e ainda soar hilário sem ser tolo e vazio.

Lescalleet faz uso de todo tipo de sonoridade e as manipula através de seu trabalho de distorção de fitas, usando sejam vozes de multidões, buzinas de carros ou sugestões de músicas populares – mergulhadas no contexto de forma nem sempre reconhecível, sendo a mais extensa delas a série de referências a Songs About Fucking do Big Black, que dialoga com o título (e a capa) do álbum e tem suas faixas referidas, espelhadas e distorcidas ao longo do primeiro disco Trophy Tape.

Songs About Nothing é sobre nada da mesma forma que Seinfeld-e-o-nada aos poucos se revela o esvaziamento de todas as coisas, de todas as possibilidades sonoras.

Andy Stott – Luxury Problems (Modern Love)

Luxury Problems alcançou o reconhecimento que era devido à dupla Passed Me By/We Stay Together e isso não depõe contra o álbum, apenas informa que Andy Stott conseguiu aparar o que havia de aspereza em sua obra-prima de 2011 e saiu com um álbum que, apesar de límpido e acessível, não deixa de confirmar seu autor como o mais hábil produtor de techno contemporâneo, em faixas que se equilibram entre canções e músicas para a pista, fazendo mais uma vez um uso de vocais que só encontra páreo na música de Burial. Enfim, se esses são os problemas do luxo, só podemos desejar que eles se perpetuem em nossos ouvidos.

Swans – The Seer (Young God)

Não existe qualquer surpresa em Michael Gira produzir música de qualidade, mas o que choca com o advento de The Seer é a urgência e contundência do álbum, como se não apenas a banda não tivesse retornado há pouco de longa pausa, mas também que a catarse provocada pelo disco vinha sendo tramada de longa data. O impacto provocado pelo álbum pode ter como analogia um ataque zumbi, pois aquelas criaturas que provavelmente há muito apodreciam na verdade pareciam ansiar a cada segundo pelo momento de atacar.

Keith Fullerton Whitman – Generators (Editions Mego)

Generators é talvez o mais bem acabado de uma série de álbuns de KFW que levam variações do nome “Generators” e é também um espetacular exercício de contenção e restrição como talvez apenas ele saiba fazer. Sua carreira é tão sólida, constante e superlativa que seus álbuns correm o risco de passarem despercebidos dado o completo desinteresse de seu criador em se manter conectado à produção contemporânea, o rigor de seu empenho e sua fidelidade ao sintetizador como motor de uma obra que não cessa de revelar novas possibilidades.

Outros 10 álbuns de grande relevância:

Actress – R.I.P. (Honest Jon’s)

R.I.P. deve ter sido o disco mais divisivo da música eletrônica em 2012 e confesso que mesmo tendo gostado nas primeiras audições, ele me soa exibicionista e gratuito, apesar de intrigante. Repetidas audições foram revelando um álbum que dialoga com a dita urban dance music ao refutar e desconstruir seus elementos.

Kevin Drumm – Relief (Editions Mego)

Indicar Relief entre os melhores e mais significativos álbuns de 2012 significa reconhecer a proeza desse álbum, assim como chamar atenção para a prodigiosa produção de Drumm em 2012 através de uma série de álbuns de distribuição limitada que tem em Relief a sua culminação. Drumm continua sua operação de internalizar a potência de sua música, substituindo o volume e a agressividade por um tipo de perturbação que só atinge aqueles que se permitem ser dominados por essa peça que esconde seu terror em um invólucro de paisagens áridas.

Florian Hecker – Chimerization (Editions Mego)

A única expectativa possível ao ouvir um disco de Florian Hecker é a da inevitável surpresa, pois se existe um produtor contemporâneo que consiga soar diferente de seus pares e de sua própria produção pregressa é Hecker. Sua obra é de constante questionamento quanto ao registro do som e suas possibilidades semânticas, e nisso Chimerization tem rara felicidade ao usar a voz humana como meio de discurso puramente sonoro e formal.

Jam City – Classical Curves (Night Slugs)

Classical Curves foi o disco de 2012 que conseguiu fazer dançar e ainda proporcionar aos ouvidos mais atentos inúmeros regalos que não são usuais nas pistas de dança. Poucas vezes um som tão mecânico e artificial conseguiu transmitir tamanha infusão eufórica sem comprometer minimamente seu compromisso estético.

Killer Mike – R.A.P. Music (Williams Street)

Um disco político em seus mais diversos aspectos, seja na sua recusa em se submeter a imagens falsas e artificiais de panoramas políticos simplistas, à própria questão da música enquanto instrumento político e, não menos importante, à política do que é produzir hip-hop em 2012 sem soar panfletário, solipsista ou mesmo autista.

KTL – V (Editions Mego)

Não é gratuito que em 2012 tivemos alguns dos álbuns mais sombrios da produção recente. Scott Walker, Swans e KTL produziram álbuns que são fiéis às suas concepções musicais mas também que não deixam de dialogar com o clima da época e talvez isso ajude um pouco a assimilar um aprofundamento no lado sombrio do som do KTL, que pode não soar tão potente quanto em outros álbuns e ainda assim ser terrível como nunca foi.

Metá Metá – Metal Metal (Desmonta)

Mais do que realizar um álbum de grandes composições, o que são, o Metá Metá consegue se desvencilhar dos vícios da jovem (velha) MBP e não assumir com a tradição os compromissos que não sejam aqueles de usá-la unicamente para seus propósitos e não para falsificar relevância ou usar filiação como escudo contra críticas. Seja MPB, seja rock, sejam os batuques africanos, Metal Metal soa menos como uma compilação de sonoridades possíveis que a reunião daquilo que foi imprescindível para realizar esse disco vivo, pungente e necessário.

Mount Eerie – Clear Moon (P.W. Elverum & Sun)

Clear Moon soa como um resumo, ápice e retorno à forma da música de Phil Elvrum desde que abandonou o projeto The Microphones e passou a se dedicar a sonoridades de maior fidelidade sonora. Clear Moon se une a Ocean Roar, ao single de “To The Ground” e à experimental versão condensada de Clear Moon/Ocean Roar como afirmações da inigualável capacidade de Elvrum em transmitir sentimentos universais através de sua música intrinsecamente pessoal.

DJ Rashad – Teklife Vol. 1: Welcome to the Chi (Lit City Trax)

Desde a sua popularização, o juke sempre se apresentou como um estilo fadado ao rápido desaparecimento por exaustão devido às limitações técnicas que lhe são próprias. Ocorre que pelo menos em 2012 o que presenciamos foi não apenas a resistência do gênero como o lançamento de seus melhores álbuns, sendo Teklife Vol. 1: Welcome to the Chi aquele que sugere a possibilidade não apenas de permanência da relevância do estilo como a de que ainda existe muito a explorar para além da novidade que há muito se esgotou. Além de confirmar DJ Rashad como a melhor e mais refinada mão quando falamos de juke/footwork.

Tom Zé – Tropicália Lixo Lógico (Passarinho)

Tom Zé consegue manter a beleza e maestria de sua produção recente e ainda ganhar vigor num álbum festivo e sem medo de abraçar escolhas pouco eruditas ou sofisticadas, criando um disco que camufla sua radicalidade e subversão enquanto encanta e faz rir.

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