Camarilha dos Quatro

Revista de crítica musical.

Rob Mazurek Octet – Skull Sessions (2013; Cuneiform, EUA [EUA/Brasil])

Rob Mazurek Octet - Skull Sessions

Rob Mazurek é um compositor e cornetista americano (Jersey City, New Jersey, 1966) que fez parte da cena jazz/experimental de Chicago nos anos 90/00 e vive atualmente em São Paulo. É mais conhecido como líder dos coletivos Chicago Underground e Exploding Star Orchestra, como membro do grupo Isotope 217 e, mais recentemente, como líder do grupo São Paulo Underground. Lançou diversos discos nas múltiplas formações do Chicago Underground (duo, trio, quarteto e orquestra), dos grupos supracitados e ainda dos projetos Starlicker e Tigersmilk. O Rob Mazurek Octet é a união de dois desses grupos, o São Paulo Underground e o Starlicker, com adições: Mazurek na corneta, Josh Herndon (do Tortoise) na bateria, Jason Adasiewicz no vibrafone, Nicole Mitchell na flauta, Guilherme Granado nos teclados e eletrônicos, Carlos Issa na guitarra e nos eletrônicos, Maurício Takara na percussão e no cavaquinho, e Thomas Rohrer na rabeca e no sax tenor afinado em dó. O octeto surgiu a partir de uma comanda para Mazurek a propósito do ciclo Querenos Miles! no SESC-São Paulo, com a releitura de composições antigas e a criação de novas inspiradas na arte do criador de In a Silent Way e Bitches Brew. O material do disco foi gravado no SESC Pinheiros entre os dias 12 e 13 de novembro de 2011.

* # *

O mundo hoje é fusion. Ao contrário dos anos 70, em que se via com mil suspeitas a fusão de gêneros e a mestiçagem de estilos, a cultura cosmopolita e o tudo-ao-mesmo-tempo-agora possibilitado pelo acesso quase absoluto ao praticamente infinito acervo disponibilizado na internet quase obrigam nosso tempo a uma colagem indiscriminada de traços ancestrais mas recém descobertos, à associação de registros disparates e com matrizes culturais distintas, à afirmação subconsciente de um atestado de cidadania da aldeia global multifacetada. O que hoje é um reflexo de um estado de coisas era nos anos 70 uma afirmação cósmica, um flerte cheio de espiritualidade aberta rumo ao futuro, rumo a um porvir desconhecido, rumo ao novo. O fusion ficou estigmatizado a partir do momento que o senso de espiritualidade se cristalizou e a ânsia do futuro, do novo, sumiu, transformando o som em muzak de luxo via organização demasiada e autoconsciência excessiva ‒ características que, pode argumentar-se, produzem o túmulo do jazz. O fusion recuperado dessas Skull Sessions, via homenagem ao Miles Davis do final dos anos 60 e do começo dos anos 70, não é mais visionário ‒ dificilmente ouviremos hoje algo visionário, pois entender o nosso presente em mutação já nos demanda o suficiente para ainda tecer projeções para o futuro ‒, mas articula com exuberância a lição cósmica promovida pelo mestre Miles há quase 50 anos.

Cósmico aqui quer dizer: abrindo-se ao indeterminado mas atendendo tanto aos princípios de caos quanto aos de ordem, à criação e à dissolução das formas, à beleza única das melodias discerníveis e a sensação de grandeza provocada pela profusão de elementos/instrumentos em ebulição, ou mesmo em desordem (nunca completa aqui, mas em momentos bastante cacofônica). Skull Sessions bebe bastante do Miles que sai com seu segundo grande quinteto do hard-bop para os flertes com os grooves do soul e do rock, e em momentos isso fica muito evidente ‒ por exemplo o meio de “Passing Light Screams”, quase uma tirada de chapéu para In a Silent Way. Mas o objetivo está longe do mimetismo com que alguns artistas desejam hoje se aproximar de seus mestres. O que Rob Mazurek persegue com seu octeto nessas sessões não é exatamente a sonoridade do Miles Davis elétrico, mas a energia intensa e a vibrante sensualidade provocada pelas jams enérgicas que reconduzem o jazz, via rock, via soul, ao âmbito ritualístico e a uma dialética entre caos e ordem que se abra ao barulho mas que também forneça amplo espaço às melodias ordenadas, ao primado da composição, às formas que brotam do informe.

E o resultado é surpreendente, seja pela beleza das composições, seja pelo entrosamento entre os músicos, seja pela incrível incandescência do conjunto, fazendo do todo sempre algo dinâmico e pulsante. Um belo exemplo da predileção pela mobilidade plena é o começo de “Skull Caves of Alderon”, um raro momento de instrumento sozinho (no caso o vibrafone de Jason Adasiewicz) que, quando ameaça a placidez, é totalmente reconfigurado pela possante levada de bateria quebrada de Josh Herndon que propulsiona a faixa. A orquestração de Skull Sessions é primorosa, fornecendo a um só tempo pressão total na cozinha, robustez no preenchimento (o som fica muito cheio por mais de 80% da duração) e discernimento entre os instrumentos, dos mais angelicais (flauta, vibrafone) aos rascantes (corneta, rabeca), que sabem ir dos instantes de singeleza à expressão catártica de energia. O fusion  de Mazurek é inescapavelmente anos 10, atualíssimo, premente: dos drones de rabeca de “Keeping the Light Up” aos eletrônicos que abrem e habitam o disco, é música que dialoga diretamente com o universo de sons produzidos hoje e ainda não completamente digeridos, domesticados. É jazz fluido, multiforme, multiinfluenciado e multiinfluenciável (há algo de Hermeto em “Skull Caves of Alderon”), festivo, pulsante, vivo e prospectando adiante. O esqueleto de Miles não está se remexendo no túmulo… está requebrando. (Ruy Gardnier)

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2 comentários em “Rob Mazurek Octet – Skull Sessions (2013; Cuneiform, EUA [EUA/Brasil])

  1. Tiago Campante
    23 de janeiro de 2013

    Sim, sim, Hermeto…
    Até agora não consegui ouvir “Skull Caves of Alderon” sem lembrar da Orquestra Itiberê

  2. submarine/noropolis
    31 de janeiro de 2013

    uma pequena correção e um info a mais. o baterista é john herndon (tortoise) e não josh.
    a edição em vinil sai no brasil pela submarine records (co-release com a cuneiform), e o lp estará disponível no país em fevereiro.
    obrigado e abraços. fred.

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