Camarilha dos Quatro

Revista de crítica musical.

Hecker – Chimerization (2012; Editions Mego, Áustria)

Hecker - Chimerization

Florian Hecker é um compositor, escritor e artista visual/sonoro nascido em Augsburgo, Alemanha, em 1975. Estudou linguística computacional e psicolinguística na Universidade Ludwig Maximilian, em Munique, e Belas Artes na Akademie de Bildenden Künste, em Viena. Sua obra lida com princípios composicionais de música eletroacústica e de disciplinas não-musicais, geralmente isolando fenômenos sonoros e processando-os expressivamente. Começou a se apresentar ao vivo em 1996 e seu primeiro álbum, IT ISO161975, é de 1998. Seu segundo álbum, Sun Pandämonium, ganhou o prêmio Ars Electronica em 2003. Outros discos importantes são Recordings For Rephlex (2006), Acid in the Style of David Tudor (2009) e Speculative Solution (2011). Já teve suas instalações sonoras expostas em diversos museus e galerias de Berlim, Viena, Frankfurt, Londres, Veneza etc. Chimerization foi apresentada como peça de arte sonora na dOCUMENTA (13) de Kassel, e consiste num texto do escritor e filósofo iraniano Reza Negarestani, “A cobra, a cabra e a escada (um jogo de tabuleiro para jogar quimera)”, recitado por três pessoas em câmaras anecoicas, e posteriormente processado por “quimerização”, que segundo Hecker consiste “num conceito derivado de investigações psicoacústicas em áreas difíceis de discernir entre a linguagem e a não-linguagem, um processo focado na decomposição sonora e na síntese de modalidades incompatíveis (…) de modo a obter uma narração além da compreensão imediata que pode ser decifrada através de audições repetidas e ‘ativas’.” Chimerization foi lançado em três versões, em alemão, em persa e em inglês. (RG)

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Cada era tem um pioneiro que carrega adiante e provoca sobressaltos no limiar entre a arte e a não-arte, no nosso caso a fronteira entre núsica e não-música. Da música não-intencional de John Cage às colagens anárquicas do grupo alemão Faust, passando pela música “industrial” do Throbbing Gristle e pela noise music de Merzbow, é nessa linha que são tecidas as proposições mais audaciosas em termos de expressão, onde elementos de percepção e sonoridade propriamente novos surgem provocando embaraço e perturbação… e concomitantemente produzindo aquela rara sensação de algo genial e inaudito sendo vivido/experimentado. Florian Hecker talvez seja hoje o artista que mais intimamente ocupa esse limiar, seja pela natureza dos princípios que norteiam suas composições, sempre a partir de fenômenos científicos ligados à materialidade sonora e à audição, e portanto científicos, seja ‒ mais importante, até ‒ pela particularidade de estrutura, timbre e articulação de suas composições, em nada assemelhadas ao que estamos acostumados a ouvir mesmo em termos de música eletroacústica, noise, drone, eletrônica experimental etc.

Chimerization é uma composição que toma como matéria a voz humana e como procedimento o processamento, a deformação e a eventual desfiguração dessa voz que recita um longo texto criado especialmente para a composição, uma voz que na verdade são três vozes cujas particularidades se perdem voluntariamente no processo de deformação provocado por Hecker e se transformam numa voz ao mesmo tempo múltipla (porque emitida por três), singular (porque é nossa experiência sonora/lógica) e vazia (há algo de robótico, inexpressivo na narração ‒ ainda que o calor da voz humana se mantenha ‒ que é realçado pelas violentas distorções provocadas). O jogo fundamental de Chimerization se dá entre a discernibilidade e a indiscernibilidade do que é recitado, provocando solavancos de compreensão uma vez que as frases nunca são completamente reconhecíveis nem se perdem completamente num pântano de não-linguagem. Dito assim, pode parecer que a quimerização de Hecker é um processo puramente teórico, que seu interesse é unicamente acadêmico e que a execução é apenas um corolário do processo conceitual. Ledo engano.

Porque Hecker antes de tudo sabe que o ouvido que sente é mais importante que o cérebro calculante, e com Chimerization ele produz um coquetel de timbres e frequências formidável a partir das distorções da voz humana, humilhando de passagem todo mundo que brinca de autotune e só consegue chegar àquela deformada básica que poucos meses desde seu nascimento já tinha virado um clichê insuportável. A natureza múltipla das metamorfoses da voz humana aqui operada transformam a recitação num fluxo intenso de expressão verbal e não-verbal que brigam sem oposição mútua, que se completam involuntariamente, passam da forma ao informe e vice-versa como uma câmera tentando dar foco ou um rio caudaloso que ora tem ondas definidas ora é preso num emaranhado de correntezas que se chocam. Para além de toda proeza conceitual, Chimerization é brilhante pela vasta riqueza de sons conseguidos através da distorção vocal, operados não por um laboratorista mas por um maestro, um chefe da experiência sensível. A quimera, sabe-se, é um monstro mitológico cuja principal característica é ser híbrido de espécies distintas. A quimerização de Florian Hecker produz efetivamente um monstro, uma recitação de texto que é ao mesmo tempo uma sonata noise, o embate entre a beleza límpida do som sintetizado em isolamento e a carnalidade da voz, da expressão e da linguagem humana articulando sentido e dando forma ao som.. Se toda “pesquisa acadêmica” fosse assim, o mundo estaria salvo e transbordando de novas proposições e sonoridades. Tão monstruoso quanto único e genial, Chimerization nos dá o que pensar, nos dá o que ouvir, e nos fascinará por tempo indeterminado. (Ruy Gardnier)

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Publicado às 23 de janeiro de 2013 por em álbum da semana e marcado , , , .
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