Camarilha dos Quatro

Revista de crítica musical.

JK Flesh / Prurient – Worship is the Cleansing of the Imagination (2013; Hydra Head, Reino Unido)

JK Flesh : Prurient - Worship is the Cleansing of the Imagination

JK Flesh é um dos pseudônimos de Justin Broadrick, produtor e músico inglês conhecido por ser um dos fundadores do Godflesh, banda de metal que mesclava sons industriais e eletrônicos, além de outras possibilidades mais atmosféricas incomuns ao gênero até então. Além de uma rápida passagem pelo Napalm Death, Broadrick fez parte de diversos projetos que vão do noise rock ao dark ambient como Head of David, Final, Techno Animal, entre outros. Prurient é o pseudônimo de Ian Dominick Fernow, artista norteamericano que começou a se apresentar e a fazer discos na segunda metade dos anos 90 e montou já nessa época o selo Hospital Productions, que veio a tornar-se uma das mais importantes marcas na música experimental americana. Já fez trabalhos em colaboração com Wolf Eyes, John Wiese, Kevin Drumm, Burning Star Core e Carlos Giffoni, e foi membro de uma infinidade de grupos de noise e de metal, como Ash Pool, Nihilist Assault Group, Nuclear Pig Shit, Vegas Martyrs e Tortured Hooker (AT, RG)

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Se por um lado é extremamente triste o fato da Hydra Head, tradicional selo de metal e noise com incontáveis lançamentos fundamentais para ambos os gêneros, ter fechado as portas em setembro do ano passado (ainda que, atualmente, o selo conte com uma espécie de programa de reabilitação e ainda existe chance de uma reação), por outro, pode-se dizer que o fizeram com grande estilo. Pois como teoricamente último lançamento temos este disco colaborativo entre dois grandes nomes, de um lado o metal avat-garde de Justin Broadrick, do outro o noise inventivo, nunca limitado, de Dominick Fernow. Dois gigantes e, de alguma forma, representantes do que foi essa utopia musical da Hydra Head: o metal e o noise, cada um com suas devidas complexidades e estrutura sônicas, se retroalimentando mutuamente para o nascimento de um terreno sempre fértil em possibilidades extremas.

“Fear of Fear” já abre o disco com brutalidade, uma percussão seca, as cordas abrasivas e passado o primeiro minuto, o vocal gutural preenche o espaço sonoro de forma absolutamente épica. Com riffs quase clássicos no que diz respeito a uma gramática do black metal, a faixa mantém uma dinâmica entre distorções eletrônicas e a guitarra e o baixo totalizador que constrói uma espécie de saga sonora entre gêneros, definitivamente um dos melhores momentos da carreira de Justin Broadrick até aqui. “Deceiver” é o loop industrial de Broadrick, um sino e uma base repetitiva que aos poucos ganham forma e outros ecos, ainda que mantendo um minimalismo inventivo. “Obedient Automaton” também se mantém no terreno industrial, com seus graves distorcidos, timbres metálicos e outros flertes eletrônicos mais dinâmicos e sempre férteis, preservando uma paisagem obscura.

Fernow faz escolhas sonoras mais atmosféricas, “Chosen Books” é uma massa sonora grave, quase uma frequência contínua, que vai ganhando entornos com samples vocais repetitivos não muito claros e outras distorções metalizadas, até atingir seu delicioso ápice em decibéis mais extremos pelo terceiro minuto. “Entering the Water” mantém uma linha melódica mais mansa, com suas texturas que soam como um campo eletromagnético em expansão, gradativamente se perdendo pelo espaço. “I Understand You” é um belo paradaxo, de um lado a melodia domesticada do sintetizador, do outro o som bruto que remete ao mais extremo harsh noise, não existe um diálogo óbvio entre as duas camadas, pelo contrário, elas funcionam quase que de forma independente, mas a dialética da composição de Fernow é de uma beleza tão única, que melodia e barulho fazem nascer uma terceira e mais do que engrandecedora sensação, aos poucos a melodia é vencida e no final ouvimos os últimos segundos de vida de um ruído abstrato. Se essa foi mesmo a última faixa de um último lançamento da Hydra Head, a escolha foi altamente oportuna e de uma poesia sem igual, porém, esperamos que a má fase do selo passe e que nossos ouvidos não fiquem órfãos dessas sonoridades tão inegavelmente vitais para o cenário musical. Enfim, mais do que lamentar as dúvidas de uma possível continuidade, Worship is the Cleansing of the Imagination deve ser celebrado como o cânone não só de gêneros mas de uma geração, pois ouvidos abertos e boa audição. (Arthur Tuoto)

Ouça “Fear of Fear” e “I Understand You“.

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