Camarilha dos Quatro

Revista de crítica musical.

FaltyDL – Hardcourage (2013; Ninja Tune, Reino Unido [EUA])

FaltyDL - Hardcourage

FaltyDL é o pseudônimo do produtor novaiorquino Drew Lustman, que desde 2007 vem lançando EPs e singles em selos como Napalm Enema, Ramp Recordings e Planet Mu. Seu primeiro álbum, Love Is a Liability, é de 2009. No ano seguinte, vieram alguns singles e diversos remixes para artistas como Scuba, Vladislav Delay e Mount Kimbie. You Stand Uncertain, seu segundo álbum, foi lançado em 2011. Hardcourage é seu terceiro disco, o primeiro lançado pela Ninja Tune.

Drew Lustman, em algum sentido, nos remete a Darren Cunningham, o Actress. Ambos produtores que, ao mesmo tempo em que mantêm um vocabulário musical sempre afiado e invariavelmente atualizado, não possuem uma gramática sonora exatamente reconhecível. Ou seja: não desfrutam de um porto seguro estilístico a que possamos nos ancorar ao divagar sobre seus trabalhos. O que, de uma forma quase sempre positiva, faz com que cada novo lançamento desses artistas seja também uma nova surpresa; com Hardcourage não é diferente. Claro que, assim como Cunningham, Lustman deixa escapar algumas operações comuns no corpo de sua obra: as notas sincopadas, as camadas vocais de um R&B quase sempre melódico e arrastado, a base percussiva complexa em diálogo com outros elementos musicais mais simplórios, dentre outros pequenos detalhes que não chegam a destoar como uma característica autoral definitiva.

Se em You Stand Uncertain o que ouvíamos era um FaltyDL brincando com gêneros – podemos afirmar até que seu trânsito geográfico contribuiu para isso (um norte-americano em Londres que não tem muito pudor em misturar referências que vão da batida 2-step ao hip-hop novaiorquino) – agora, em Hardcourage, o deslocamente parece ser um pouco mais temporal e específico. E quando falamos em deslocamento temporal na música eletrônica, especialmente na dance music contemporânea, estamos falando desde um saudosismo festivo (Jerome LOL, Urulu, entre outros) a uma relação mais bruta com certas sonoridades primárias (Pink, do Four Tet, talvez um belo exemplo recente). Uma coisa é certa: estamos falando de house music. O velho e bom 4/4 que serviu como base criativa para tantos gêneros e subgêneros, entre experimentações e mil especulações sonoras, chegando ao ponto de legitimar toda uma estética mainstream da música para pistas. Pois Hardcourage mistura vários desses caminhos, não que o disco fique refém dessa estética houseira primitiva – ainda que, em seus momentos mais fracos, ele caia em um ambient quase aleatório nesse sentido de uma estética retrô domesticada – mas o que fica claro desde o início é que o movimento aqui é assumidamente passional, Lustman não está interessado em reinventar um gênero ou comentar formalmente o passado, é bastante óbvio que o efeito melódico que o álbum almeja é quase como um calmo divertimento, um pós-festa, com seus devidos momentos etéreos a outros instantes velozes, nunca exatamente abruptos. Uma tranquila e sempre agradável viagem sideral, divertida em todo caso, que parte da boa dance music para gerar seus frutos harmoniosos.

O disco começa tímido, “Stay I’m Changed” tem synths pesados e arrastados, uma atmosfera futurista quase desoladora, a faixa atinge certa velocidade quando uma profusão robótica começa a se fazer presente, nossa festinha teve seu devido início. Em “She Sleeps” temos algumas marcas de Lustman, a base percussiva sincopada, o vocal passional, aqui bastante livre. A festinha houseria talvez seja mais óbvia em “Straight & Arrow” e, mais ainda, em “Uncea”, a primeira com seu minimalismo quase didático em suas camadas e os vocais, agora mais precisos, plantados como um puro artesanato, e a segunda, com sua dinâmica espertinha, complexa em sua base mas, ao mesmo tempo, ridiculamente simples em seus elementos agregados, com direito a um jogo de pratos mais do que saudosista, chocalhos e sussurros estratégicos. “For Karme” talvez seja a faixa mais obviamente festiva do álbum, veloz em seu andamento a ponto de remeter a mais acessível faixa de um Orbital da vida. Em direção oposta, “Kenny Rolls One” é um mistério, apesar do início etéreo, a faixa engana e envereda para um dance indeciso e um pouco aleatório em seus elementos. “Bells” fecha o álbum com estilo, uma variação luminosa crescente abre a faixa, sons aleatórios de sinos e, de repente, um saxofone meio epiléptico surge, algumas variações depois e o que temos é uma faixa que mescla vários elementos acústicos (o sino, o sax, as cordas) sintetizados, ainda, nessa jornada meio houseira, meio indecisa, porém, ainda assim, altamente apaixonante. (Arthur Tuoto)

Ouça “Straight & Arrow

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Publicado às 20 de fevereiro de 2013 por em álbum da semana e marcado , .
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