Camarilha dos Quatro

Revista de crítica musical.

Clementina de Jesus – “Taratá” (1973; Odeon, Brasil)

Quando foi “descoberta” aos 63 anos por Hermínio Bello de Carvalho, Clementina não era propriamente uma “herdeira” ou portadora da tradição. Apesar de levar corimás, jongos, pontos de umbanda e cantos de trabalho para seus discos, Clementina era, de fato e de direito, partideira versada nas artes de improviso do partido-alto. Uma sambista em plena ebulição criativa, portanto. Migrando do interior do Rio para o bairro de Oswaldo Cruz, viu a Portela nascer e participou dos antológicos e memoráveis pagodes organizados por Paulo e seus baluartes. É de se supor que nessas festas, Clementina assimilasse as melodias rebuscadas da Portela dos anos 40 segundo influências características da musicais que trouxe de Valença. É de se supor também que este procedimento enriqueceu seu canto e mesmo o próprio samba da Portela, na medida em que os fluxos de migração do interior para a capital do Rio era intenso. Um contexto de absoluta promiscuidade cultural, no qual a expressão “de raiz” não faz nenhum sentido.

“Taratá”, faixa de 1973 do terceiro disco de Clementina, representa um bom exemplo de como uma sambista pode e deve se aventurar às margens de seu território e experimentar outras sonoridades. Neste sentido, “Taratá” é uma faixa experimental de primeira grandeza. Um canto de trabalho tradicional, de domínio público, sobre o qual Clementina cria um universo de matizes melódicas e rítmicas. A cada repetição dos versos da canção (“terra que tem minhoca eu gostá de cavucar…”), ela entra com uma entonação diferente, desconstruindo a letra e a melodia. O arranjo de Nelson Martins dos Santos é constituído por uma série de camadas de percussão, aparentemente tocadas por Naná Vasconcelos, que se alternam conforme Clementina evolui seu improviso vocal. Uma faixa deslumbrante, que dá muito o que pensar, “Taratá”demonstra a disposição experimental do samba, junto a outros tantos exemplos como Moreira da Silva, João Nogueira, Antônio Candeia, Paulinho da Viola, Fundo de Quintal, etc. Não há portanto, nenhum resquício de essencialismo no trabalho de Clementina.

Se hoje não há no Brasil gênero mais reacionário e estagnado do que o samba, penso que isso se deve a dois fatores interligados: à intromissão da classe média acadêmica e “chicólatra”, que desde a década de 60 vincula o samba ao discurso bossanovista do bom gosto (que corresponde à prescrição viniciana do samba “como forma de oração”); e, decorrendo desta visão, uma perspectiva equivocada quanto a própria constituição do samba. A visão idealista, que identifica o samba simultaneamente ao sentido de nação e a um passado edênico, acaba por petrificar a criatividade a níveis alarmantes, pois condiciona a produção e a percepção a uma forma única de composição e instrumentação, forma essa eminentemente “moral”. Pode-se dizer que, salvo raríssimas exceções, o moralismo domina hoje o panorama do samba. “Taratá” pode ser tomada como exemplo contundente da vanguarda do samba, não obstante Clementina seja considerada hoje de um ponto de vista tradicionalista e, pelo visto, infecundo. (Bernardo Oliveira)

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Conhecia Clementina há muito tempo, talvez desde a infância; sua figura que sugeria épocas perdidas, sua voz grave e peculiaríssima não se deixavam confundir. Muitos anos depois já adulto voltei a Clementina: que susto! Sim, ali estavam músicas tradicionais, pontos do candomblé, a cantora descoberta já idosa. Mas que nada, ali estava uma artista no amplo domínio de seu ofício. Tanto que apesar das canções fazerem conta de um idioma específico, cantadas por Clementina, elas não lembravam nada mais – tal qual fossem novas composições; ela é a verdadeira criadora de cada uma das músicas onde põe sua voz, tal como as mais finas cantoras de jazz, sua interpretação é tanto singular quanto irrepetível.

“Taratáé um dos destaques de Marinheiro Só, o que não é pouco. E se Clementina domina a percussão que a acompanha não é mero enfeite, mas de um virtuosismo seco que faz falta a certos músicos que andam fazendo patéticos solos de percussão para gringo ouvir. Curioso é que, prestando atenção nas nuances dos vocais, ouso dizer que que as entonações, as variações com que cada frase é repetida e os timbres adotados são, em sua particularidade, dignos de um grande artista como João Gilberto, aquele para qual um verso nunca é apenas um verso. Clementina não fez por menos, talvez não tenhamos tido tempo suficiente para aplaudir sua majestade. (Marcus Martins)

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Publicado às 24 de abril de 2008 por em samba e marcado , , .
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