Camarilha dos Quatro

Revista de crítica musical.

Itamar Assumpção – Pretobrás II – Maldito Vírgula + Pretobrás III – Devia Ser Proibido (2010; Sesc, Brasil)

Itamar Assumpção (1949 – 2003) foi um poeta, compositor e instrumentista central na música paulistana da segunda metade do século passado. Assumpção e sua banda, a Isca de Polícia, foram revelados junto ao grupo de artistas que no final da década de 70  fizeram do teatro Lira Paulistana a casa da chamada Vanguarda Paulista, um dos grandes centros de experimentação musical da época. De Beleléu, Leléu, Eu, lançado em 1980, até a parceria com Naná Vasconcelos, Isso vai dar repercussão, de 2004, Assumpção desenvolveu um estilo próprio de tocar, cantar e compor, misturando teatro, afropop, crítica social, ironia fina, funk e samba, sempre de forma rigorosamente invulgar. Os póstumos Pretrobrás II – Maldito Vírgula e Pretobrás III – Devia Ser Proibido, foram idealizados e parcialmente gravados pelo próprio artista, juntamente com a caixa que reúne toda sua obra, batizada por ele mesmo como Caixa Preta. A produção musical do Pretobrás II ficou a cargo de Beto Villares, enquanto a terceira parte foi produzida por Paulo Lepetit, baixista da Isca de Polícia, e contam com participações especiais de Bnegão, Elza Soares, Seu Jorge, Zélia Duncan, Ney Matogrosso, Alzira E, Arnaldo Antunes, de Arrigo Barnabé e da própria banda Isca de Polícia. (B.O.)

* # *

Álbuns póstumos costumam demandar grandes esforços, mas geralmente desaguam em fracasso. Ou porque o autor não terminou a obra, deixando espaço para o trabalho insuficiente do produtor, ou porque o material não era bom mesmo. Mas cabe perguntar quanto vale um sopro de Itamar Assumpção, sete anos após sua morte. Como um sopro de vitalidade na surrada emepebê? Natural que se possa questionar essa filiação, ainda mais em relação a um artista que se desvencilhou estrategicamente de muitos rótulos. Reggae? MPB? Maldito? Nada disso.

A música de uma forma geral, e particularmente a música cantada em português, sente muito a falta de Itamar Assumpção. Das tiradas elegantes, da palavra fácil, sempre incomum. Das melodias saborosas, ao mesmo tempo estranhas, belas e assobiáveis. Da voz e do sotaque característicos, que ele soube utilizar com maestria, lapidando álbum a álbum seu estilo. E, sobretudo, da ironia, das sacadas sobre a vida, a hipocrisia, a burrice, o acaso, a amizade, o amor, das rimas construídas com sagacidade malandra, eivadas por uma “leveza profunda”, se me permitem. Para alguns, Itamar Assumpção pode estar morto. Mas estou certo de que ele sabia, como diz o samba, que “o nome, a obra imortaliza”.

Encarando momentos difíceis, mas ciente do seu próprio valor – a grande característica dos grandes artistas – Assumpção idealizou a Caixa Preta, contendo a totalidade de suas obras, além de dois álbuns que constituiriam a continuação de Pretobrás, lançado em 1998. Com os esforços de suas filhas, Anelis e Serena Assumpção, a Caixa Preta foi finalmente lançada, bem como a continuação de Pretobrás.

O primeiro Pretobrás era um imenso e transbordante caldeirão de experiências e suingue, que destilava, em mais de uma hora, todos os grandes talentos poéticos e musicais de Itamar. Temperado por um peso a mais nas palavras, mas tambem por uma certa angústia, Pretobrás denotava que a habitual leveza fora parcialmente substituída por um sarcasmo mais acentuado, como se pode verificar na abertura, com a paródia demolidora de “Luar do Sertão“, seguida por frases agressivas (“porcaria da cultura tanto bate até que fura”) e ecos inesperados (“cultura sabe que existe miséria, existe fartura… e partitura”). Já despontavam as canções dedicadas a amigos, Arrigo Barnabé e Elke Maravilha, mais do que homenagens, verdadeiros retratos esculpidos em palavras. Um acento mais diversificado na instrumentação resultaria em belíssimas texturas, como no samba “Vai cuidar de sua vida” e na salsa-pop “Reengenharia”, a mais corrosiva, eventualmente infame (“não sou Gabriel mas sou pensador, meu amor…”).

Um trabalho à altura do gênio, mas para o qual Assumpção projetou uma continuidade em duas partes, gravando as faixas e trabalhando as ideias, mesmo prevendo o pior. Como atesta sua filha, Anelis, ele “fez guias de voz e violão em diversos estúdios e, graças a sua criatividade excessiva e seriedade com a música, essas guias têm sentimentos interpretativos como se fossem pra valer.” A idéia foi convocar dois produtores familiarizados com o pensamento e a obra de Assumpção, para finalizar a trilogia. Pretobrás II – Maldito Vírgula foi produzido por Beto Villares, um dos nomes por trás da caixa Música do Brasil, enquanto Pretobrás III – Devia Ser Proibido foi produzido pelo baixista Paulo Lepetit, baixista da Isca de Polícia. Reunir pessoas que trabalharam e conheceram Assumpção, misturando-as a jovens admiradores foi a solução encontrada pela produção para chegar o mais próximo possível do que o artista projetou.

A unidade estilística particular, reforçada pela presença de espírito sui generis do autor durante as gravações – sua voz comovente, a entonação grave – permite tanto uma análise em separado, como também em conjunto dos álbuns. A presença do artista nas composições e arranjos é forte o bastante para considerarmos um álbum de Itamar Assumpção, mas é também um fato que Villares e Lepetit guiaram as ideias conforme certas inflexões próprias de seus respectivoas trabalhos. Pretobrás II – Maldito Vírgula é talvez mais coeso do ponto de vista do conceito, portando contornos mais definidos. E também mais aberto à influências musicais mais recentes, tanto na timbragem quanto nos que diz respeito aos gêneros. É um prazer inenarrável conhecer composições como “Samba-Enredo”, “Je T’aime Mais Que O Jerome”, “Todo esse tempo” (com participação de Bnegão), e “Breu da Noite”, cantada por Arnaldo Antunes. E arranjadas com elegância  e economia condizentes com o nível poético e musical proposto por Assumpção. Sem contar a comovente simbiose entre a fabulosa Elza Soares e a canção que Assumpção compôs em sua homenagem, batizada “Elza Soares”.

Ocorre, no entanto, que a terceira parte, Devia ser Proibido, sendo produzida por um instrumentista que teve sua vida artística atrelada à banda Isca de Polícia, e que conviveu com os modos e maneiras de Itamar, traz à tona uma desordem, uma saudável mistureba de gêneros e canções, me parece, mais apropriadas para dar conta da personalidade musical multifacetada do artista. De fato, a segunda parte é mais enxuta, mas trata-se de uma releitura, como que respondendo à pergunta “o que Itamar estaria fazendo hoje?”

Mas a terceira parte é como se estivéssemos diante não de um disco póstumo, mas de um disco descoberto, gravado pela banda Isca de Polícia em meados dos anos 80. Além do ecletismo musical vertiginoso que passeia do rock ao sertanejo, podemos perceber também as letras mais viscerais, versando sobre a morte, a dor e o ciúme com o humor habitual, mas, ao contrário da primeira parte, não parecem tão angustiadas, pelo contrário. Temas mais graves, abordados com o humor de sempre, e por uma teatralidade latente, presente nos jogos vocais

Em “Ciúme doentio”, aborda o tema com ironia indefectível (“basta você me dizer ‘amor, eu vou até o mercado ali na esquina, pra eu começar a sofrer como se o mercado fosse lá na China”). Na empolgante “Anteontem (Melô da UTI)”, faz troça da morte, e do medo debocha na retrô “Eu tenho medo”. São Paulo está presente na incrível “Persigo São Paulo”, que traz ecos evidentes do apelo realizado no primeiro Pretobrás em “Outras Capitais”. Mas a faixa mais emocionalmente evocativa da Banda Isca de Polícia é “Ninguém como você”. A sutileza de seus arranjo de metais, o diálogo de Assumpção com as cantoras, tudo conspira para que nos encontremos em um estranhíssimo interstício entre o passado e o futuro.

Quanto vale um sopro de Itamar, em pleno 2011, sete anos após sua morte? Em “Variações”, escutamos o verso lapidar: “quem quer fazer boa música / tem que bolar uma fuga / contar compasso quebrado / cantar a boca que usa”. A boca e a mente de Itamar estão presentes em ambos os álbuns. Não lembro de experiência póstuma tão poderosa e evocativa da presença do artista. Talvez Sun Ship, de John Coltrane. Não exatamente por sua música sublime, mas pela evidente permanência e atualidade daquilo que ela tinha de melhor, preservada na máxima cantada em “Fico Louco”, de seu primeiro disco: “espero ouvir você dizer que gosta de viver em perigo.” Mesmo falecido há sete anos, Itamar Assumpção ainda teve o fôlego de nos legar este “perigo”, prazeroso acima de tudo. (Bernardo Oliveira)

Ps.: Não sei se feliz ou infelizmente, a Caixa Preta (já) se encontra esgotada. Aguardemos as reprensagens.

* # *

Quando termina de cantar a faixa feita em sua homenagem, a suprema Elza Soares confessa, “Tou chorando, cara”, tamanha a intensidade da interpretação. É de fato uma canção estupenda, com um arranjo formidável – destaque para os metais – e uma performance absolutamente extraordinária. Mas “Tou chorando, cara” serve para qualquer fã de Itamar Assumpção quando se depara com dois álbuns de gravações inéditas desse que é um dos maiores artistas que a música brasileira já viu. Itamar conseguiu inúmeros equilíbrios perfeitos com sua voz e sua música: entre o passado da música brasileira, que ele sempre fez questão de relembrar (disco para Ataulfo Alves, versões de Adoniran e Geraldo Pereira), e seu presente, sempre buscando novos caminhos dentro da canção brasileira; entre letra e música, com uma verve fabulosa de letrista que alimentava a experimentação rítmica e as variações na interpretação, frequentemente com resultados geniais; entre humor e sentimentalismo, apostando por vezes num amor fervoroso (“Fico Louco”, “Sexto Sentido”, “Coração Absurdo”, “Milágrimas”), em outras na brincadeira (“Chavão Abre Porta Grande”, “Estropício” e o bom humor onipresente em suas inflexões vocais), por vezes reunindo os dois de maneira inigualável (“Custa Nada Sonhar”, uma música sobre o amor nos tempos da hiperinflação). Como se isso já não fosse suficiente, há além do Itamar letrista e do Itamar músico o Itamar intérprete, com uma voz grave e descontraída que, sem grandes artifícios vocais, consegue simplesmente pelo estilo imprimir um sabor, um ritmo, um modo de vida (por extensão) completamente distinto de tudo. Saber que esse sujeito, tristemente falecido numa época em que permanecia ativo, tem mais dois discos, bom, isso é um grande motivo pra dizer “Tou chorando, cara”. E choramos embevecidos ouvindo a integridade desses dois volumes póstumos da trilogia Pretobrás.

As gravações de voz e violão (alguns) são de Itamar, o resto foi feito por produtores afinados com sua estética, Beto Villares e Paulo Lepetit. Mas, caso não soubesse, nada nos dois discos levantaria suspeitas de legitimidade ou de propriedade nas escolhas dos produtores, dos arranjos, das escolhas estéticas, das participações especiais, e por aí vai. Como é a sensibilidade de Itamar que domina em ambos os discos, deixemos para segundo plano as intervenções específicas de cada produtor, ainda que elas sejam importantes (Beto Villares asumindo mais liberdades “contemporânas”, por assim dizer, e Lepetit atendo-se ao “som Itamar” mais conhecido). O que cabe ressaltar em primeiro lugar é a grandeza das composições e das interpretações de Itamar, com destaque para “Samba Enredo”, “Je t’aime Mais que o Jerôme”, “Procurei”, “Más Línguas”, “Agora É Que São Elas”, a já citada “Elza Soares”, “Eu Tenho Medo”, a inacreditável “Persigo São Paulo” (maior defesa já feita sobre o amor a essa cidade), “Pirex” (competindo com “Comment te dire adieu” de Serge Gainsbourg em matéria de letras com versos terminados em X), “Visita Suicida” e a metalinguística “Os Incomodados Que Se Mudem”, repetida nos dois volumes.

O melhor elogio a se fazer a esses dois Pretobrás, ainda que sejam discos de um homem que sabe que está perto da morte (“Anteontem (Melô da UTI)” que o diga), é que eles não se ouvem como discos póstumos nem como discos-testamento: são dois discos “de carreira”, simplesmente ignorando qualquer situação terminal. E a qualidade das faixas diz o resto. Todas as letras dão continuidade a suas preocupações habituais, o amor, a vida na cidade, as boutades singelas (saber se Hitler dizia pra Eva Braun mais “mein Kampf” ou “Ich liebe dich, Frau”, em “Fundamental”), mas são as composições, com seu suíngue, e as interpretações, serenas e classudas, que dão aos dois discos a sensação de vitalidade de alguém que está na flor da idade e no ápice de sua inspiração, não o de alguém que quer dar sua contribuição definitiva por saber que o tempo à frente é curto. A única faixa que lida diretamente com a idade é “Mas Línguas”, e trata-se um elogio à maturidade (“Antes dos 30 é encrenca”, “bom só depois dos70”, “até os 60, cê tenta, depois dos 70, cê senta”), com crianças cantando no refrão e fazendo intervenções que revertem qualquer possível morbidez numa jovialidade suprema.

Itamar Assumpção é um dos últimos músicos brasileiros a criar, mais que um estilo, uma mitologia. Há a mitologia-Noel Rosa, a mitologia-Dorival Caymmi, a mitologia-Adoniran Barbosa, a mitologia-Jorge Ben – possivelmente a que mais dialoga com Itamar –, as mitologias de Caetano, de Chico, de Gil e de Tom Zé, e as de alguns que fizeram poucos discos (Macalé, Sérgio Sampaio, Arnaldo Baptista) ou desenvolveram obras irregulares (Raul Seixas, Roberto Carlos, Arrigo Barnabé), mas é raro o artista que desenvolveu em sua obra uma marca tão característica de modo a impregnar qualquer coisa que ele faça de sua personalidade musical. Itamar Assumpção é claramente um desses, um gigante, um gênio total, e esses dois últimos volumes de Pretobrás demonstram isso com musicalidade, lirismo e ritmo, ou, mais que isso, com o gênio do artista, que ultrapassa todas as intempéries e resplandece mesmo quando ele já não está entre nós. Tou chorando, cara, “sangro quando estás longe de mim”. (Ruy Gardnier)

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3 comentários em “Itamar Assumpção – Pretobrás II – Maldito Vírgula + Pretobrás III – Devia Ser Proibido (2010; Sesc, Brasil)

  1. André Luís Omote
    18 de novembro de 2011

    Adorei a matéria. Fui correndo ouvir os “Pretobrases”. E depois de ler o seu texto, fui ouvir com muito mais significado. Viva Itamar!

  2. Antonio Carneiro
    27 de dezembro de 2011

    To chorando cara…

  3. José Antonio Pinheiro Silva
    18 de abril de 2012

    Quero fazer comentário sobre o que assistir no Canal Brasil – Tamanho talento da música brasileira e desconhecido da maioria dos brasileiros, confesso que ainda não tinha conhecimento desse artista, da sua musicalidade, infelizmente, a nossa música-raiz está perdendo espaço na mídia para opopulismo de consumo imediato e que se esvai na mesma proporção. Ainda bem que o descobri. Valeu!

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